NEGRITA 00 — Maria Firmina dos Reis

MARIA FIRMINA DOS REIS (1825–1917)

É a primeira mulher brasileira a escrever um romance, a obra “Úrsula, romance original brasileiro, por uma maranhense”. Tá bom pra você? Este também é o primeiro livro do país a defender o abolicionismo. Lançado em 1859. Maria é negra e nasceu em São Luís do Maranhão. Foi registrada por seu pai e quando sua mãe morreu passou a viver com sua avó materna. Em 1847 iniciou seus trabalhos como professora primária, sendo também a primeira pessoa concursada no Maranhão. Depois de aposentada, em 1881, fundou uma escola mista para crianças pobres, que, por causar polêmica na cidade, precisou ser fechada três anos depois; adotou também onze filhos.

Num cenário onde era mulher negra, professora e pobre, suas obras continham um enorme número de referências literárias, sendo, neste sentido, uma mulher ainda mais sensacional pois, no século XIX, a maioria das mulheres brasileiras eram analfabetas.

Seu livro de poesia Cantos à beira-mar (1871) é o décimo primeiro livro de poesia escrito por uma mulher brasileira; e essa diva é autora do primeiro diário de mulher brasileira chamado “Álbum”.

Foto da Internet

Algumas Obras:

Úrsula, romance original brasileiro, por uma maranhense. 1859.

Gupeva, romance brasiliense. 1861.

A escrava. 1887.

Hino da libertação dos escravos. 1888.

Álbum, poemas, charadas, folclore. Publicado em 1975.

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“Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa.

Maria Firmina dos Reis,Úrsula.

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No Álbum de Uma Amiga

D’amiga a existência tão triste, e cansada,

De dor tão eivada, não queiras provar;

Se a custo um sorriso desliza aparente,

Que máguas não sente, que busca ocultar!?…

Os crus dissabores que eu sofro são tantos,

São tantos os prantos, que vivo a chorar,

É tanta a agonia, tão lenta e sentida,

Que rouba-me a vida, sem nunca acabar.

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D’amiga a existência não queiras provar,

Há nelas tais dores, que podem matar.

O pranto é ventura, que almejo gozar;

A dor é tão funda, que estanca o chorar.

Se intento um sorriso, que duro penar!

Que chagas não sinto no peito sangrar!…

Não queiras a vida que eu sofro — levar,

Resume tais dores que podem matar.

E eu as sofro todas, e nem sei como posso existir!

Vaga sombra entre os vivos, — mal podendo meus pesares sentir.

Talvez assim deus queira o meu viver tão cheio de amargura.

P’ra que não ame a vida, e não me aterre a fria sepultura.

Maria Firmina dos Reis. Cantos à beira-mar.

Ela é nossa mãe. Nossa Precursora. Leia, leia, leia Maria Firmina dos Reis.

Referências:

1- Literatura e Afrodescendência no Brasil: antologia crítica.

2- Jornal de poesia: http://www.jornaldepoesia.jor.br/