Quem somos sem a nossa história?

Bruna Zanatta
Sep 3, 2018 · 4 min read

O Museu Nacional era o detentor do maior acervo de história natural e antropologia da América Latina. Eram mais de 20 MILHÕES de itens catalogados. Vendo os itens perdidos, reflexões (que tomam minha mente com frequência) novamente se apoderaram de mim e comecei a escrever um textinho que — obviamente — virou um TEXTÃO, e gostaria de compartilhar.

As histórias que contamos são as memórias que guardamos, que nos marcaram, que nos moldaram.

Sem memória não há historia. Sem história não fomos.

Então quem somos?

Como damos sentido a nossa breve existência diante da infinidade do tempo?

Diferente dos outros animais, não estamos aqui meramente existindo, vivendo o presente. Talvez fosse mais fácil se soubéssemos simplesmente existir…mas há muito transformamos nossa forma de viver, criando e evoluindo (ou é o que gostamos de pensar). Parece-me que esse aspecto da nossa humanidade é vital para não cairmos no vazio existencialista.

Desde sempre, contamos e recontamos nossas histórias, sejam elas baseadas em fatos reais, sejam de pura ficção. E para aguentar a consciência da finitude, e encontrar sentido no viver, atribuímos valor. Valor ao que veio antes de nós e faz parte do que somos, que nos mostra como chegamos até aqui e para onde (ainda) podemos ir. Mesmo que nossa história seja breve, o valor que atribuímos a tudo é o que faz valer a pena….e pra isso, precisamos das memórias.

Nos vemos como seres insubstituíveis por causa de nossas memórias — que não se limitam ao presente, como nos animais; nem se estendem sem limites, como nas máquinas. Se como indivíduos somos únicos, reconhecemos que nossa espécie também é, assim como sua identidade.

Isso me remete à ficção e como ela sempre refletiu nossos medos e anseios.

De certa forma, encaramos que a perda da memória, para o indivíduo, representa o fim do que ele foi. Mesmo que seja possível que se viva das memórias dos outros, da vida reproduzida e registrada, das criações que serão perpetuadas…ainda assim, demonstramos que isso não basta. Imaginamos incansavelmente como seria transferir nosso cérebro a uma máquina, pois sabemos que nosso corpo não define nossa individualidade, mas nossas memórias sim.

E é na imperfeição delas que encontramos o equilíbrio para viver. Se, como num “anfitrião” de Westworld, tivéssemos a capacidade de registrar tudo que vivemos e acessar esse registro 100% do tempo, viver seria uma mistura insuportável de passado e presente. Não teríamos cicatrizes para nos fortalecer, mas feridas permanentemente abertas.

Por meio da imperfeição com que guardamos e recontamos nossas memórias e nossas histórias que definimos nossa humanidade, que damos sentido à nossa existência.

Assim atribuímos valor a esse conhecimento. Seja escrevendo sobre o que passou. Seja coletando fragmentos milagrosamente preservados.

E todo valor que atribuímos nos ajuda a entender por que estamos aqui.

O valor, por exemplo, que damos aos outros animais com os quais dividimos nossa passagem na Terra diz muito sobre nós. Menosprezá-los é uma escolha.

Um dia todos serão extintos…para a natureza não existe certo e errado, bem ou mal. Se for em 100 ou 1.000.000 anos…faz parte do ciclo da vida. Mas o fato de estarmos desvalorizando essa existência compartilhada, acelerando sua extinção, é uma perda unicamente nossa.

Se todos os animais forem extintos, se perdermos paisagens que levaram milhões de anos para se formar e serem exuberantes no nosso tempo de vida, se permitirmos a destruição das memórias de tudo e todos que vieram antes de nós, o que vai sobrar? Como iremos reconhecer nossa humanidade e o que ela significa? Valerá a pena viver ainda? Não sei, mas não me agrada essa visão.

Lembro-me novamente da ficção. No livro “Androides sonham com ovelhas elétricas?” (diferente do filme — que é genial em focar nos androides) o que se destacou, para mim, foi a relação dos humanos com os bichos. Para aqueles condenados a permanecer na Terra, possuir um animal real — que não fosse androide — era um ato de honra e desespero, uma tentativa de se agarrar no último traço que nos conectava com aquilo que um dia definira nossa humanidade. Humanidade esta que estava à prova, afinal “mais humano que humanos” era uma definição para androides.

Só valorizaremos a natureza quando a perdermos? Só valorizaremos nossa cultura, nossa história quando ela se for? Parece clichê, mas não distante da realidade.

Há aqueles que se usam da destruição a titulo de terrorismo, de fins “desumanos”. É fácil identificá-los. E também passa a sensação de que, quando o mal toma forma, pode ser combatido.

Mas o descaso, o descaso não é tão pontual. Atribuímos esse mal, talvez por revolta e desespero, à classe política — que certamente não está isenta da sua parcela de culpa. Mas esse descaso também vem de mim, do outro, de todos. Seja pelos políticos que elegemos, seja cidadãos que nos tornamos. Seja pela resistência que perdemos, seja pela impotência que de nós se apoderou.

Mesmo aquela cultura que costumávamos valorizar e da qual tínhamos motivo para ter orgulho, foi usada contra nós. Não haveria vergonha em ser o país do futebol, num lugar onde é possível ser o país de tantas outras riquezas. Mas não somos nem um, nem outro, nem nada. O legado da Copa foram os bilhões gastos em estádios que não precisávamos e um placar para selar nossa humilhação.

Assim vamos construindo e destruindo a nossa história, seja como brasileiros, seja como seres humanos.

Talvez….deixar de existir não seja a tragédia que nos aguarda.

A tragédia será ter feito pouco caso da existência que tivemos.

Bruna Zanatta

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Frankly, my dear, I don't give a damn