Anestesiado
“I wanna heal, I wanna feel
Like I’m close to something real
I wanna find something I’ve wanted all along
Somewhere I belong”
Linkin Park — Somewhere I Belong
Tinha planejado um texto completamente diferente desse publicado aqui. Eu vou compilando ideias ao longo da semana e reservo as quintas pra poder amarrar melhor algumas ideias, aprofundar outras. Ontem, 20 de julho, Chester Bennington, vocal do Linkin Park, tirou a própria vida, e eu não soube pensar em mais nada além de tudo o que ele tinha feito pra salvar inúmeras vidas por aí — enquanto nada pode fazer pra salvar a si mesmo.
Não era fã incondicional dos gritos do Chester, não ouvia mais com a frequência de tempos passados, mas eu gostava muito de Linkin Park. Por muito tempo, eu soube de cor os tempos e os ritmos de cada faixa do Hybrid Theory e do Meteora. Com certeza estufei o peito de dor e raiva e berrei, por muitas vezes, palavra por palavra de Somewhere I Belong e Numb.
Sinto que acompanhar esses gritos foi uma das experiências mais libertadoras que vivi ao longo da adolescência. Conversando com amigos na quarta sobre as bandas da época, foi automático parar pra ouvir uns sons deles e voltar uns anos no tempo. Eu ainda tinha na ponta da língua o Collision Course porque tinha decorado o que era Jay Z e o que era Linkin Park, sabendo cada uma das transições. O Jay Z manda demais, mas o Chester tá incrível.
Na quarta, em algum momento do presente, eu fazia uma volta nostálgica às emoções boas do passado enquanto ele se via completamente sem perspectivas de futuro. Ninguém sabia, ninguém imaginava, só ele. E quantos mais será que vão passar na nossa frente vivendo dessa forma, presos em suas próprias celas, todos os dias?
Eu me sentia muito amparado pelo que ele cantava. O esforço de transformar traumas e frustrações em arte era admirável. A maneira como ele condensava as próprias dores e, ao cantar, parecia falar sobre as mais diversas amarguras pra pessoas completamente diferentes era o refúgio que muitos encontravam pra poder respirar e seguir em frente.
Confesso que, por algum tempo, imaginei que a depressão tomava a mente de pessoas incapazes de visualizar o bem em suas vidas, ou como estavam cercadas de boas possibilidades. E devo ter carregado isso até ficar realmente de frente com ela, sentir a ansiedade, o nervoso, os calafrios. Sentir um mal estar psicológico tão intenso que ele se torna físico. Algo em você parece quebrado e, sem saber a raiz de um problema tão grave, só existe uma conclusão: o problema é você.
Imagine estar em um ambiente em que a tensão no ar é tão intensa que poderia ser cortada com uma faca. Imagine que ele está dentro da sua cabeça, sob constante pressão e influência de tudo o que cerca você. Imagine ter o pesar do passado, o temor do presente e o terror do futuro circulando pelas veias, passando por todos os nervos. Se você for capaz de visualizar tudo isso, não se esqueça de pensar também que a presença da faca — ou algo que o valha — pode dar um desfecho simples a uma matemática complexa demais.
Não foram muitos os momentos em que me vi assim, mas também não foram poucos. Todos muito intensos e, olhando pra trás, parece que aconteceram ontem. Pra cruzar esse longo caminho, sei o quanto muitas pessoas doaram tempo, ouvidos, braços e forças pra fazer com que eu não enfrentasse essa derrocada tão interna sozinho e implodisse de vez. Houve quem me ajudasse à distância, com conselhos, e gente que talvez eu nunca conheça pessoalmente que estava lá me emprestando a voz e tudo mais que o próprio peito oferecia pra que eu pudesse aliviar um pouco das minhas próprias dores. O Chester era uma delas.
As pessoas mais admiráveis que conhecemos são aquelas que nos inspiram a lutar, de alguma forma, em busca de evolução, desenvolvimento, crescimento. As vemos como verdadeiros anjos caminhando ao nosso lado, mas, frequentemente, esquecemos dos demônios que elas podem carregar pra si mesmas.
É fundamental pensar no sentimento dos outros com respeito. Sem o viés do julgamento, dos nossos parâmetros sobre o dos demais, mas com o olhar de quem deseja que as pessoas se entendam porque é impossível entendê-las sem isso. Acredito que esse é o olhar de quem deseja que todos possam prosperar ou falhar, de acordo com o que acaso reservar, podendo viver em paz com a sucessão de altos e baixos que a vida oferece.
E muito obrigado, Chester, do fundo do meu coração mesmo. Ainda que você não tenha encontrado paz na magnitude do esforço que fez, saiba que muitos, assim como eu, nunca se esquecerão dela. E, pra você que leu até aqui, não tenha medo de buscar apoio se necessário tampouco receio de oferecer amparo sempre que possível.
