Papéis

Bruno Gonçalves
Jul 28, 2017 · 5 min read
nota 13/10 fácil pro protagonismo de Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures, 2016/FOX)

“Futuro, presente, passado, realmente jogados
Fizemos a história, perdemos a memória
Temos nosso valor, temos nosso valor”

Rappin’ Hood — Sou Negrão

Desde pequeno caçando coisas coloridas pra ver e histórias legais pra ler, eu era bem criança ainda o quando fui apresentado pro universo dos quadrinhos, um mundo que foi me abraçando aos poucos sempre que um personagem me inspirava admiração de alguma forma. Lembro que, nos primeiros contatos, tudo parecia estranho, mas eram tantas cores e tantas ideias diferentes que eu passava horas e horas vendo tudo o que podia sobre tudo o que lia.

Apesar de não manter muito apreço pelos gibis da DC hoje em dia, lembro que sempre simpatizei com o Batman. As pessoas me falavam que eu era esperto, então aquele lance da inteligência, do raciocínio tão intenso e tão rápido que se eleva a superpoder, soava cativante. Dentro do universo Marvel, muito mais do meu gosto, o mesmo interesse surgiu pelo Homem de Ferro. E são criações bastante atraentes, de verdade, tirando uma trivialidade básica, que é bem mais fácil perceber depois de velho, olhando o mundo com calma: sentado diante de uma TV na periferia, a identificação com o universo do bilionário branco, fosse Stark ou Wayne, era só uma piada de péssimo gosto.

Parece até estranho falar sobre a falta de representatividade em personagens de quadrinhos, filmes ou TV sabendo que existe um entorno de dificuldades diárias bem maiores. Soa como um debate de segundo plano, mas, como redator, entendo que referências são fundamentais. Quanto mais me identifico com elas, melhor posso aproveitá-las. Logo, quando vejo que o sucesso não tem minha cor, meus traços nem se veste como eu, entendo de saída que não é pra mim. E isso também não é nada fácil.

Não é fácil digerir que não somos reconhecidamente bons pra protagonizar entretenimento e lazer — que não sejam música, esportes ou comédia, claro, porque é amplamente sabido que pessoas negras cantam, correm e são engraçadas, porém criam confusão e dão tiros em coisas — principalmente outras pessoas negras. A arte imita tanto a vida que, em 2017, o racismo surge, de tempos em tempos, em versões 4K e 3D — com som digital.

Não somos galãs ou musas. Mesmo sendo maioria, não somos nem o padrão. Dizem tanto que nossos traços marcantes não são bonitos que, quando os enaltecem, parece ter muito mais a ver com fetichização e exploração do que com reconhecimento. Considerando que já não somos empresários de sucesso, advogados, engenheiros, médicos ou quaisquer daquelas profissões clássicas que oferecem títulos que inspiradores de admiração instantânea, é bem complicado não podemos ser essas pessoas nem em fantasia.

Considerando que, fazendo uma volta rápida ao passado, fica fácil perceber que também não somos os protagonistas dos livros que nos acompanham por toda a vida — sejam eles de História ou não. Pra conhecermos mais de nossas próprias histórias e encontrar algo que possa ser considerado, de fato, nosso protagonismo, é preciso fugir de inúmeras narrativas que se constroem e se desenvolvendo tendo a negritude apenas como chamariz, pano de fundo ou enfeite. O que elas realmente abordam — e não se cansam de enaltecer — são a bondade e a doçura presentes na redenção do homem branco.

Ao longo dos 89 anos de premiações oferecidas pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, apenas 5 negros, 4 homens e 1 mulher, subiram ao palco pra receber um Oscar por papéis principais. Oficialmente, aliás, só outras 13 pessoas negras foram premiadas se somarmos coadjuvantes, roteiristas e diretores. Halle Berry, Melhor Atriz de 2002, foi a segunda mulher negra premiada pela Academia. A primeira, Hattie McDaniel, foi a Melhor Atriz Coadjuvante de 1940.

E essa cerimônia foi única mesmo, já que também teve Denzel Washington recebendo o prêmio de Melhor Ator — segundo negro a conquistá-lo. Sidney Poitier foi o primeiro. Em 1963.

Vale lembrar que premiações não estabelecem, necessariamente, parâmetros de alta qualidade pra nenhuma produção, mas naturalmente, é inegável que a visibilidade trazida por elas é imensa — principalmente num mundo em que é muito fácil transformar em inexistente quem não é visto e nem ouvido. Além disso, é infinitamente mais fácil buscarmos a excelência quando sentimos que estamos cercados por ela.

Luke Cage (2016/Netflix): gente preta no centro, cercada por valorização e respeito

Luke Cage, do elenco à montagem, da produção à trilha sonora, é uma série que homenageia, valoriza e reverencia negritude enquanto cor, cultura e raça na construção de elementos heroicos. Faz com que olhemos pra tela com os olhos brilhosos e encontremos, em imagens simples, a representação de muito daquilo que nós faz mais fortes. É o mesmo orgulho que sentimos vendo Estrelas Além do Tempo, acompanhando o pioneirismo das especialistas negras que ajudaram a traçar os rumos da NASA e da exploração do espaço como conhecemos hoje. Seja real ou ilusão, são pequenas amostras do quanto a admiração nos inspira — e do quanto mais poderia inspirar se eu tivesse milhares de exemplos pra citar aqui.

Com o incentivo certo, se leva uma jovem negra e periférica a acreditar que ela não só vai ser um sucesso nas telas, como, um dia, seu trabalho e sua competência a farão tão realizada na carreira quanto a Oprah Winfrey. Uma base sólida faz com que uma criança olhe pro espaço e decida seguir os passos de Neil deGrasse Tyson. Usando as ferramentas certas, podemos transformar potenciais e sonhos em realidades como Barack Obama e Nelson Mandela.

Por isso, precisamos ter — cada vez mais — a oportunidade de encontrar talentos como os de Cuba Gooding Jr., Jamie Foxx, Forest Whitaker, Morgan Freeman, Jennifer Hudson, Mo’nique, Whoopi Goldberg, Lupita Nyong’o e Viola Davis. Temos de incentivar — em toda rua e esquina — o surgimento de mentes tão brilhantes como as de Ava Duvernay, Barry Jenkins, Raoul Peck, Lee Daniels, Shonda Rhimes, Justin Simien, Tina Mabry, Issa Rae, Mahershala Ali, Idris Elba e Rosario Dawson. Se nos encontramos distantes de estrelar grandes sucessos, nos vemos confinados aos ambientes onde o normal é protagonizar nossas séries de fracasso: no fim das contas, quem não é considerado apto a sentar à mesa pra degustar o filé permanece destinado a roer o osso. Sinceramente, desses papéis indigestos nesses filmes horrorosos, nós já estamos bem mais do que fartos.

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