Como os cursinhos estariam preparados para a redação do ENEM?
uma reflexão sobre o papel do português em cursinhos pré-vestibulares

Tenho refletido bastante sobre o aprendizado de português depois que o ENEM aconteceu. De certa forma, parece que a questão sobre a relevância ou não do cinema (brasileiro / no brasil) ficou presa em mim. Mas o que mais me intriga não é ela, é o que tem antes: como um aluno estaria preparado para uma questão como essa? Sem querer esgotar o assunto da preparação, que está em uma série de mecanismos complexos da educação e da sociedade, peço para ficar sobre os processos que se dão principalmente em cursinhos populares. Pela experiência de ser professor de português em instituições como essas e estar dentro de uma reflexão contínua sobre o papel desses pré-vestibulares e da minha docência, acredito que posso contribuir para a questão do Cinema, apresentada pelo ENEM, de uma outra maneira que não pela discussão o cinema brasileiro (no Brasil) é importante contra o cinema brasileiro (no Brasil) não é importante. Para essa contribuição, falarei como as frentes do português se relacionam e como elas, juntas, poderiam mobilizar um conhecimento crítico do aluno sobre cinema.
É comum que em cursinhos tenhamos três frentes de português: literatura, língua portuguesa e redação. A primeira fica responsável pela apresentação das literaturas que correspondem ao vestibular, apontando para questões de estilo e para outras que emergem a partir da primeira. Por ser uma lista bem vasta e que compreende diversos estilos literários brasileiros e de língua portuguesa, essa matéria ganha e precisa de um lugar de destaque nas grades. Um bom curso de literatura não deveria ser um resumo dos enredos dos livros, mas sim como, quais e de quais formas esses livros se relacionam ou se relacionaram com o Brasil e suas mais diversas camadas. A segunda, gramática e interpretação de texto, ensina sobre as estruturas da língua portuguesa formal e padrão. Figuras de linguagens, que estariam inseridos no que diz respeito à segunda parte do curso, também fazem parte da matéria. Elas são a pedra de toque com a literatura, pois é, ao investigar os efeitos de estilo de uma obra que se consegue abstrair muito conteúdo referente ao funcionamento da língua portuguesa estudada. Do outro lado, as estruturas sintáticas de um período e de como, nele, os símbolos empregados geram determinado efeito, levariam o aluno diretamente à matéria de redação, que, por sua vez, ficaria responsável por apresentar construções argumentativas, tanto em sua forma quanto em sua prática. A ligação entre os três fica evidente e nenhuma outra ordem me parece melhor que esta: com as três matérias, literatura, língua portuguesa e redação, temos, respectivamente, o corpus de análise, a análise linguística/estilística e a prática (ou emulação). Cursinhos que possuem divisão da matéria de português em três frentes permitem com que professores e alunos tenham bastante tempo para trabalhar conteúdos profundos, dando a possibilidade de compreensão profunda de conceitos fundamentais da argumentação, da linguística e da crítica literária brasileira.
Sendo o ENEM uma prova para avaliar e selecionar candidatos através de um concurso, as próprias perguntas revelam os tipos de concorrentes que devem ser escolhidos. Uma reflexão das questões trazidas pelos vestibulares pode ser interessante neste sentido: como é que teríamos formado um aluno ou uma aluna para respondê-las bem?
A partir do que foi apresentado mais acima, sobre a estrutura da frente de português, um aluno ou aluna seriam bem formados se entendessem, antes de tudo, que cinema é, a partir de nossos filmes, atores, diretores, premiações etc, uma forma de expressão tradicional daquilo que tomarei a liberdade de chamar cultura brasileira e intricadamente relacionada com as diferenças sociais do país. As provas existem: os estudos de literatura comparada da USP analisam obras cinematográficas de diferentes países, buscando entender como esses filmes colaboram para a compreensão de uma ou mais tipo de tradição, cultura, história, sociedade. Pela USP ser um dos polos de interesse dos alunos e financiar a FUVEST, um dos vestibulares mais procurados, as matérias e as pesquisas desenvolvidas lá também deveriam estar, no mínimo, no horizonte dos alunos; outra prova é o cinema como uma forma de expressão estar em quase todas as grades dos canais abertos de TV, do cinema internacional ao nacional, do clássico ao que há de mais contemporâneo, de tarde e de madrugada, sendo distribuído massivamente e gratuitamente em todo território nacional.
Nos cursinhos, a literatura deveria ficar responsável pela primeira colocação do tema entre as matérias. Apresentá-la de forma crítica. A matéria de linguagens e interpretações buscaria entender como esses símbolos se movimentam e se relacionam, sua sintaxe, e quais são as diferentes linguagens do cinema. Já a matéria de redação se responsabilizaria pelas formas de argumentação que esse cinema usa, aproximando-as da dissertação (gênero mais comum nos vestibulares que nos especializamos), mostrando para o aluno possibilidades, erros e acertos, dos objetos estudados para, logo em seguida, levá-los à prática consciente.
Assim, a partir apenas das frentes de português, acredito que o aluno estaria apto a responder ou dissertar sobre uma pergunta como essa. De certa forma, o próprio debate que o ENEM gerou revela que o cinema não está presente na maioria dos lugares, materiais e imateriais, da sociedade brasileira. Portanto, cobrem e aproveitem o privilégio do bom debate e, se a instituição de ensino não te providência substância, sem pânico, ainda dá para assistir ao cinema nacional de casa.
