Dia 28/02. — Carta sobre temporal e sobre a morte.

Como estão as coisas, querida?

Por aqui as coisas andaram mal. A solidão de sempre. A solidão é meia verdade, mas é. Iracema esteve sempre comigo. Sua companhia é resistente. Amo. Ela me ama igual ou mais. Mas as coisas andaram realmente mal. Estou me recuperando. Já não tenho os pensamentos de morte e sinto, por isso, coragem para compartilhar com você que minha cabeça andava povoada desses tentáculos de irracionalidade doentia. Você escreva sobre isso depois nas suas revistas, acho que pode servir. Os pensamentos de morte foram muitos. Você sabe o que é isso? Pensar na morte é como tomar um porre bem tomado e já na cama, deitado, sem saber como chegou até ela, ver o mundo girar, girar, sentindo todos os seus órgãos derreterem. Tem também a ânsia e o frio na barriga. Não são borboletas, são cigarras. Depois, não saber, nesse atormento, se o que enxerga de olhos abertos vem de dentro ou de fora. Enxerga-se muito pouco quando só se pensa na morte. Pensar nela é isso mais ou menos: passar pelos sintomas dessa sensação febril, sem o porre e sem o naufrágio e sem qualquer presença real do Leviatã; dizer, no final de tudo, “me mata deus!”. Mas, como eu afirmei antes, estou bem e ainda não acredito em deus — apesar de não negar sua existência desde 2014, quando passamos juntos por aquela recessão e vimos a gente toda, faminta e desempregada, vivendo outro dia para contar suas histórias de desemprego e fome. Estou mesmo bem. Antes que você pense qualquer coisa, sei que autoafirmação nunca é bom sinal e mostra fraqueza nas convicções, mas sinto que estou me curando. Eu sou bom na coisa do sentir e minhas intuições falham na frequência natural das falhas humanas, ou seja, as vezes sim, as vezes não.

Não pude contar para ninguém e carreguei o peso da morte todos esses dias. Que peso! Os meus estudos têm também me contaminado. Ando estudando gente morte que se matou. Gente sem Iracema nenhuma na vida, acho. Estudos muito parecidos com o seu. Alivia, apesar de tudo, saber, por eles, que esse mal não é só meu e já vem de longa data. Isso denota uma certa cura num certo nível. Mas você sabe da intenção que é pensar na morte? É do tempo não existir. Isso pode te servir para suas ótimas publicações, não esqueça. Por falar em tempo, essa semana choveu pedras de gelo. É como uma neve sem glamour hollywoodiano. Arrebentou meu telhado e minha janela. As minhas plantas precisaram ser cuidadas assim que a chuva passou. Se toda a tempestade aduba o jardim, como disse o Sérgio Sampaio, essa arrebentou dois vasos de barro que eu tinha reaproveitado da Velha e precisei plantar minhas romãzinhas em garrafas pet. Até o final do mês, as mudas deverão ser transplantadas e você poderá escrever sobre elas quando quiser. Como eu sei que moro longe, mandarei fotos para você não se incomodar com o longo trajeto que nos separa. Enquanto isso você pode ir imaginando. Você precisava ver como a terra pilhou o granizo. A intuição me dizia que era preciso tirá-las de lá para não matar as plantinhas de frio. Com paciência as vejo crescendo numa lição de vida bonita. Aprendi a ter lições de vida com as coisas do mundo te lendo e pensando em você e nos seus cachinhos loirinhos de anjo institucionalizado. Se essa chuva e este parágrafo não são grandes metáforas dos meus pensamentos universais de morte, eu preciso revisitar suas aulas ou colocar tudo mais em prática. Prática leva a perfeição.

Venha me visitar. Ainda não morri, mas não posso garantir nada.

Dois beijos, uma para cada maça da tua cara, e um abraço. Mande considerações minhas e de Iracema para todos os nossos amigos daí.