Minha casa entre os lugares que não frequento.

A construção do eu entre o MASP e a Vila Lucinda.

Descubro, no acaso de um dia qualquer, que às terças o MASP é de graça. Insistentemente dou minhas caras na São Paulo que não cresci e não moro. Pago com a minha presença um aluguel quase diário de suas ruas. Fico perto um tanto e a capital paulista, não tem jeito, é diferente. É mais. No meu documento lê-se “natural de Osasco”, mas moro em Jandira, uma cidade próxima. Entre EMTU, CPTM e Metrôs, a jornada me toma uma hora e vinte, ou mais, para se chegar à estação Trianon-Masp. Das catracas, leva-se, sabidamente, menos de cinco minutos de caminhada para alcançar o contêiner ajeitado como bilheteria e, finalmente, colar, na camiseta, o adesivo que me permite acesso ao museu. Depois de subir suas escadas externas e com a minha pequena vontade de curioso, tentaria honestamente apreender ou notar um mundo novo só para mim. Até forçaria um espanto com qualquer bobeirinha nos quadros cujo valor atinge milhares. Inevitavelmente estranharia o espaço reformado do museu, reparando em voltas o simulacro da gente europeia arrumada e descontraída, tomando notas como um viajante atento a todos detalhes da expedição.

O dia da Proclamação da República cairia justamente na terça; perfeito para minha empresa que junta “museu de graça” e “dia livre” numa só linha de pensamento. Às vezes volto na rotineira São Paulo até em feriado, ainda mais com o MASP às terças-feiras ficando só lá e mais em nenhum outro lugar. Tracei o plano da visitação de maneira displicente, com um rigor meio bambo de quem sabe o decoro dos dias livres na zona oeste da Grande São Paulo.

O esperado dia se anunciou e, com ele, o regimento principal das folgas na região: manutenção na linha da CPTM e uma fadiga incontornável que vem não se sabe de onde. Vou arranjando desculpas para justificar minha falta de vontade em peregrinar até à capital. Resguardar minha energia física se faz agora fundamental. Amanhã, auto-afirmo, o gasto das energias será obrigatório. No fundo, sentir a tal fadiga me deixa desgostoso e a vontade frustrada de sair me desgasta ainda mais. Sinto-me um desleixado. A cidade de São Paulo tem mesmo arte e cultura na faixa. “É só ir…” e a repetição da frase se transforma num mantra como o som que produz os trilhos do trem. Talvez eu seja o único vagabundo da cidade que tenha preguiça de ocupar aquilo que também é meu por direito.

Levanto, passo um café na medida enquanto contemplo, da Vila Lucinda, onde moro, a vista para outros bairros. Um amontoado de casas, em sua maioria alaranjada, equilibram-se umas sobre as outras no morro que se ergue do lado oposto à janela. A vista daqui é privilegiada. Vejo a movimentação diária das ruas e sinto um cheiro de brasa que me lembra domingo. Músicas disputam o vale. É mesmo um dia para ficar em casa como os meus vizinhos. Lavo a xícara assim que o café acaba, deixo a pia limpa e fecho a janela caso chova.

Penso em fazer alguma coisa que julgo minimamente necessária para não deixar passar o feriado como tudo o que se passa em branco. O pensamento bloqueia as intervenções externas que viram uma trilha sonora distante e difusa. Não quero estudar ou ler nada. Faço o mesmo todos os dias, é parte do meu trabalho. Quero descansar do hábito acadêmico. Alguns poucos amigos que moram na mesma rua viajaram e os que moram em São Paulo não chegariam até aqui como chego até eles. Lembrei-me do plano traçado num dos dias anteriores, já longe e tarde demais para acontecer. Passei a meditar sobre o que poderia ocupar meu tempo. Enquanto escovava os dentes, veio na memória de um projeto do Google que me permite visitar museus públicos — ou não — de casa. A saída seria perfeita: + R$7,80 das passagens + uns 20 reais para comida + uns trocados que ficam com o comércio ilegal do trem que poderiam restar no final do mês e ainda ter a visita ao acervo garantida no conforto do meu lar.

Vou ao computador e pesquiso no browser “google art project MASP”. Nada. A Pinacoteca está lá, mas de graça, hoje, segundo meus planos, só o Museu de Arte. Outra pesquisa me põe os pés na página do próprio museu. Há um acervo digitalizado. Quero ver as fotografias. Na barra de menu: fotografia; arte brasileira. Pronto. Antes mesmo da hora do almoço estou com o meu caderno fazendo as devidas anotações pela excursão virtual. Detenho-me nesta:

disponível em: http://masp.art.br/masp2010/acervo_detalheobra.php?id=730

Começo procurando aquilo que escapa da manipulação do fotógrafo e mantenho-me desatento a qualquer questão técnica. Não me interessa o fotógrafo, o homem, sua posição de manequim. Procuro aquilo que não fora manipulado pelo artista e surge, para o observador, como um ato falho da própria técnica.

Percebo o livro em que o sujeito apoia o braço esquerdo, saindo um pouco da mesa que o sustenta. Abaixo do volume uma toalha de mesa com estampas floridas. No capote do fotografado um pequeno botão. Seria um daqueles que vêm para substituir os que eventualmente se perdem? Percebo, atrás da personagem, um resto de encosto que parece ter sido feito com couro. O que o sujeito faz sentado nessa posição? Para quem a foto foi tirada? Vou assim percorrendo a fotografia, sinceramente, um tanto desinteressado. Chego ao rosto e em sua boca que guarda um ar de deboche. Ao nariz fino e às pequenas bolsas de pele que se formam sobre a maçã do rosto. Olho-o nos olhos. Olhos de uma pessoa morta. As cavidades fundas. O ar cadavérico e alvo.

Vou à ficha técnica. Tipo de Obra: fotografia; Categoria: arte das Américas; Autor: fotógrafo norte americano. Volto à fotografia e encaro o gringo nos olhos uma outra vez. Confiro a pesquisa que tinha feito antes de encontrá-lo no acervo digital. A tela do computador passa a fornecer uma efeito estranho de portal. Data da obra: 1840. Faz muito tempo. O sujeito continua pálido e cada vez mais transparente. Mesmo depois de tantos anos, vejo-o. Percebo que, à medida em que estudo seus olhos ele estuda os meus. Piscamos juntos.

Preciso comer, a pressão deve ter baixado. A tontura e o esforço me tiram do lugar.

Volto para a cozinha. Já se passou algum tempo desde quando saí para minha visita particular ao MASP. Reabro a janela e o ar carregando o calor das grelhas entra num solavanco. O sol das duas ilumina melhor o vale repleto de casas laranjas. Percebo as centenas de antenas as decoram de branco; as caixas-d’água que salpicam o morro de azul. O verde das mangueiras e das bananeiras que cresce entre os sobrados e ganha espaço pelas construções arriscadas. De dentro de uma das muitas janelinhas abertas, um homem aparece bebendo uma cerveja na latinha de alumínio enquanto contempla a mesma paisagem que eu. Não vejo seus olhos pela distância, mas sei que, pela direção da sua cabeça, nossos olhares se encontram. Gostaria de ter a certeza. Ele, no entanto, fecha a janela e o vejo virando as costas. Fecho uma dos lados do vidro que não me deixam acender a boca do fogão e começo a preparar o almoço.

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