Missa para Fidel

Diário do meio — 21 de novembro de 2016

“Eu tenho a mania de me colocar em experimentos: adotei um amuleto. O objeto deveria ter a capacidade de um rosário cristão que, por minha obrigação e ciência, atribuiria incondicionalmente, ao tocá-lo ou vê-lo, energia, proteção, companhia etc. Em palavras menos sacras, talvez, ele deveria facilitar a transição entre o material e o imaterial.

Desafiei-me a experimentar a religiosidade, enfim, sem julgamentos e sem discriminação. No final de uma semana, ao mesmo tempo que colocaria meu ceticismo à prova, poderia evocar na carne, nem que em simulacro tosco, a inexplicável e além-da-matéria .

Promovera ao posto de amuleto, mesmo que já há muito dogmatizado pelos camaradas, um chaveiro cubano do guerrilheiro argentino Che Guevara. Um presente único por ter vindo de uma pessoa cujos caminhos entre ele e eu se cruzam muito esporadicamente. Era um regalo, como ele mesmo disse, ao qual adiciono o adjetivo inesperado. Ao me deparar com a imagem do Che, o ato de amizade ficou suspenso em ambivalência. Ao mimo adicionei os mais claros e conflitantes pensamentos: uma hegemônica figura do comandante, meu titânico ceticismo e as apropriações ideológicas e simbólicas do capital, o que decorou-o como uma das minhas lembranças mais significativas para vida.

Nenhum outro objeto poderia representar melhor a complexidade da fé que procurava recriar. Imagem de santo não se compra, se ganha.

Quando ele se desprendeu do molho de chaves, sem nenhum motivo aparente, guardei-o na minha estante de livros. Não atribuí à queda nenhuma crendice, mesmo quase sendo levado a crer que naquilo tinha coisa. Inegavelmente o destino facilitou os processos do experimento. Depois de pensar e pensar em qual objeto seria responsável por me guiar aos caminhos metafísicos, a decisão foi fácil. Fiz dos bolsos das minhas calças a morada do comandante.”


Diário do meio — 26 de Novembro de 2016

“Hoje de manhã, numa conversa com T., debatíamos as contradições da esquerda. O tema inquieto girava em torno de como poderíamos, desconfigurados e órfãos, “salvar” o mundo do temido Kapital; como se supera a máquina demoníaca do capitalismo cujas nossas vontades, independente de como se manifestem, parecem desgraçadamente inúteis no enfrentamento direto? O marxismo nos atribuiu o dever incontornável da salvação dos pecados do mundo, ele dizia. A esquerda, paralisada, carrega a esperança messiânica de um futuro inexistente e que pinta, hoje, num afresco da História, um tempo tenebroso e assombrado com as tintas de uma guerra perdida, eu adicionava.

Emprestava, ainda, de T. J. Clark e de seu ensaio Por uma esquerda sem futuro, a humilde ideia de que não há, na esquerda, traço qualquer de salvação. O neoliberalismo venceu, dizíamos. Fomos enxotados para a nossa própria lata de lixo, com o rabo bem entre as pernas! Defendi que, a partir de nossa trágica fortuna, a esquerda teria forças para reagir: olhando ao redor; estendendo a mão aos mais próximos. Precisamos parar de esperar que Marx desça dos céus ou venha nos guiar para a terra prometida do socialismo, dizia o coro dos passageiros. Talvez esse seja o mais difícil dos atos revolucionários: agir humilde e objetivamente dentro da insignificância a nós atribuída pelos donos do poder. Implodí-lo ou revestí-lo como el mosguito en la piedra, ai, si, si, si. cantou T. antes de uma breve reflexão silenciosa.

E, entre deliberações aqui e lá, ele me disse, “cê viu, mano, o Fidel morreu. Morreu hoje cedo”. “Morreu?!”. Mostrei os dentes como sempre faço para demonstrar minha descrença. Não sei bem o que senti. Não sabia se tristeza ou nada. Tristeza pela minha compaixão aos sentimento do T. que estava claramente tocado pela morte de Fidel e nada por minha falta de vínculo pessoal ou espiritual com o líder cubano. Ainda assim, um vulto seu, com o clássico charuto na boca, esfumaçou minha mente e pude vê-lo como se estivesse conosco, ali, em carne e sangue. Precisamos nos voltar para os meios de produção dos nossos tempos, assim como o Fidel. Ao terminar de dizer a frase, cada um seguiu seu caminho.

Mais tarde fui perceber que a imagem dele se confundia com a do amuleto. Devo tê-lo procurado no bolso onde me acompanhou entre as aulas e ao longo de todo o resto dia. O Che também fumava um charuto.”


Fideu morreu :( Cê viu? 
13:23

Não tinha visto até o T. me falar.
Bem quando a comecei ter meu amuleto do Che.
13:29

Nossa hahaha verdade.
Deu azar pro Fidel
13:31

Acho que não. kkk
Ele foi canonizado
agora
13:32


Diário do meio — 26 de novembro de 2016

“Considerei perfeita a metáfora da canonização do Fidel, na hora. Naquele momento, ainda voltando para casa, tentei achar analogias cristãs que me vêm à cabeça pelo hábito da criação. Primeiro pensei em Che como Jesus, num trono de esmeraldas posto em posição superior, um verdadeiro rei; Fidel estaria sentado ao seu lado direito, com sua sempre cara de homem austero.

Pensando melhor agora, percebo que errei: que homem santo, senão Jesus, estaria ao lado direito de um mito muito maior. Era tudo mais simples: morria Fidel, entre pedras e prantos; filho da revolução cujo próprio argentino a absorvia em sua imagem e semelhança.

Desci da estação, procurei no bolso, outra vez, o amuleto. Olhei o Che na palma da minha mão e o apertei com força. Entendi, entre as reconstruções da revolução cubana e da fé, uma calma de criança que acha consolo na materialidade do cobertorzinho. Senti uma minúscula, porém latente paz no coração e, mesmo cansado, caminhei até em casa acompanhado do dia quente, do céu aberto e dos pensamentos em A História me Absolverá.”

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