O teto.

Alex Holyoake

Sophia passara uma vida construindo e concertando telhados. Jamais concordara com a construção de lajes. “Não fica nada empoçado, dona.”

Sem a flexibilidade de antigamente, passou a fazer pequenos remendos e reparos. Paredes ou móveis dos bairros mais próximos e mais distantes eram suas poucas e únicas oportunidades de serviço. Não a contratam mais com a frequência de antigamente. Nas outras, contratam-na por dó ou crueldade. Devia ser a mesma coisa.

Não havia escada alguma que a fizesse sair do chão depois que a crise dos telhados apertou. Sentia o corpo pesado com a idade e com a proibição dos treinos e exercícios. Era esse o regime autoritário que impunham a toda especialista em telhados: estagnação. Regra instituída de maneira totalmente antidemocrática — protestos não adiantavam.

Cartazes espalhados pela cidade diziam contratar apenas especialistas em lajes ou slabs. Sua casa, resistindo, sofria com a crise dos telhados também. Com a falta de procura em seus serviços, tudo ficou muito caro para que Sophia pudesse consertá-la de próprio punho. Suas duas filhas não aguentaram.

Países como o Brasil sofrem dessa doença de tempos em tempos. “Só é possível num país como esse, o negócio é ir para fora!”, pensava ela ao andar pelas ruas procurando um job. Assim diziam na sua época: job. Batia de porta em porta: knock knock. Muitas nem sequer abriam.

Afligia uma população inteira a tal da crise que transformou o país na “maior potência de lajes do mundo!”. Jornal se vendia aos montes sem mostrar que algumas lajes, em todo esse tempo, começaram a juntar lodo, gotejar. Eram todas de segunda mão. “Propaganda enganosa! Mais telhados iam dar um jeito rapidinho”.

Senhorinhas tinham a coragem de apontar para cima de algumas lajes para evidenciar o flagelo com a ponta dos seus guarda-chuvas. Davam as mãos umas para as outras e desfiavam ideias vulgares. Flutuavam irritadinhas pelas calçadas. “Seria impressionante se eles puderem aguentar mais vinte dias”.

Vinte anos se passaram desde a inauguração do regime. Sophia ainda segue sonhando com um mundo cheio de telhados. A média de altura do brasileiro aumentou e uma população inteira começou a andar curvada ou inclinada, assim, meia de lado.


Gostei de ter escrito esse conto ou crônica. A gente vai decidindo os gêneros que quiser, então eu deixo você escolher qual prefere. Inspirei-me formalmente no Drummond e em sua fantástica antologia Contos Plausíveis.

Se você o aproveitou, assim como eu, não fique com vergonha em apertar o coraçãozinho que se chama recommend e que flutua em algum canto dessa página — acho que o esquerdo. De vergonha, aqui, já basta a minha em pedir o s2 para continuar batendo.

Se você quer ler mais das coisas que escrevo, pode clicar aqui e ver meu alter ego discutindo sobre a esquerda e seus ícones, além de religiosidade:

Ou você pode controlar sua ansiedade clicando nesse manual poético:

Obrigado! 
Até segunda.

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