Tomateiro que não se abandona.

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Tenho notado que o tomateiro que plantei, faz um tempo, está tombado. Ele vai indo em direção ao sol, assim como toda planta vai, rastejante e insistentemente. Ele precisa de sustentação, disse a vó. Eu sei que esses pés de tomate precisam de alguma coisa que os sustente, disse pra ela, mas enquanto o vejo diariamente tombando, penso, por enquanto está OK, faz mal não. E deu certo; no final, cresceu. Olha, achei que cresceria mais, mesmo no vaso, confesso. A amiga lá, cuidadora das plantas, disse que o dela cresceu para mais de dois metros, deu os tomates e morreu.

Antes e aos poucos, sinto que o tomateiro vai perdendo o interesse em mim e eu nele. Já não é de hoje. Não é ele, exatamente, que me desanima, não. Não foi o ato de semear, cultivar, esperar pacientemente pelo tal do resultado. Deve ser o lugar que, no fundo da casa, me desanima; o clima que em maio começa a esfriar; deve ser alguma coisa com o meu espírito raso; alguma coisa com minha comunicabilidade irregular. Ou é, como se eu dissesse, antes da hora, vai lá e cresce; busca seu sol que vai ficar tudo certo. Mas ele não se cria! Plantas não se criam. Não é assim, vai ficar tudo certo.

Abandono ele algumas vezes, sempre tombado, e se o deixo sem água por dois dias, fica com suas folhas caídas, como se estivesse melancólico. Quando isso acontece, eu jogo água e faço uma oração silenciosa, breve, para ele ficar bem. Agora, dia sim dia não, dou-lhe água, mesmo sabendo ou achando que existe o perigo, nessa irregularidade, dele murchar para sempre e eu o perder. Isso me deixaria triste comigo. O tomateiro, coitado, não tem culpa nenhuma; eu que botei ele no mundo. Imagina se ele morrer!

Tem também esse lance com o sol que, se mal servido, sai uns sucos feios nas folhas. Por isso ele deve rastejar moribundo. Uma coisa pavorosa que só sei lidar na poda. Li, na internet, que a melhor maneira de resolver o problema é colocando debaixo da luz, mas não tem sol da manhã nos fundos da casa; só o da tarde, que é, como eu sei, forte demais para a planta. É forte demais até para a gente.

Semana passada brotaram flores amarelinhas e delas estão nascendo os primeiros tomates. São pequenas bolinhas de cor verde, meio opacas e sem graça. Não sem graça a ponto de frustrar, só não tem nada de especial. Eu que criei expectativas. Mas que menino da cidade convive com tomateiros para saber que, quando começa a dar tomate, eles são sem graça? Aquelas flores ainda não caíram e continuam presas nos frutos. Isso também foi bem curioso descobrir. Achei que iam cair. Até disse para Iracema que cairiam, mas não caíram. As flores estão lá, grudadas.

E pensar o quanto fui metódico com a adubação, com os horários, com a qualidade do solo, com o tamanho do vaso. Só foi eu voltar para o trabalho que deixei de ser mais regrado. Deixei de contar histórias para elas. Eram as melhores histórias que alguém já tinha contado para um tomateiro tombado. Contei a história do gato preto que eu emprestei e adaptei do Poe. É que tem um gato preto aqui que sempre me faz lembrar desse conto e que já usou a terra do vaso duas vezes. Tive que improvisar uma proteção porque não tava dando para o gato ficar cagando no tomateiro toda vez que lhe apertasse. Ironicamente, duas vezes por semana eu aplicava o adubo líquido que aprendi a fazer dentro de uma garrafa pet de dois litros. Uma garrafa da coca: cascas de frutas, folhas verdes, água. Fede menos do que parece e funciona. Era o segredo. Hoje, é só com água que eu rego. A garrafa com adubo ainda tá aqui, mas eu tenho muita preguiça de diluí-lo numa proporção de um para dez. Um de adubo, dez de água.

Vendo assim, parece que passou bem rápido do carinho para rotina. Não que não tenha carinho se tiver rotina, mas pelo tomateiro é um carinho mais distante do que eu gostaria e por isso parece rotina. E vou te dizer, apesar disso, nunca deixei de regá-lo. Água é o que há de mais sagrado e não pode se negar nunca, nem para um tomateiro. Fiquei meditando sobre isso e sobre outra coisa que reparei: ele está cheio de raízes brancas que escapam para cima da terra. São finas, mas tem um monte delas. Raízes que percebo anuladas pela barbárie do vaso. Concentradíssimas, o completam, vivas, resistentindo. Elas parecem pedir mais terra e eu só jogo água, displicentemente, como se fosse o suficiente e, até agora, tem sido.

Nessas horas em que estou admirando os tomatinhos, me pego dizendo baixo, o que vão ser de vocês só com água? Corto, uma vez ou outra, algum galho para deixar que a força vital, se é que há alguma naquela terra, se encaminhem diretamente para os tomates. Fico mais confortável, como se, podando com essa desculpa, sentisse fazendo minha parte nesse nosso contrato.

Se amadurecerem, os tomates, eu juro que um deles replanto para vê-lo crescer na promessa de cuidar melhor. Decidi agora. Tomateiro não se abandona.

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