Cara Gente Branca e seus importantes questionamentos raciais

Às vezes é preciso falar bem alto para tentar ser ouvido

Cara Gente Branca, esta história não é sobre vocês, mas é também para vocês.

Sinopse: Cara Gente Branca (Dear white people, no original) acompanha a história de um grupo de negros que estuda na faculdade de Winchester, um ambiente majoritariamente branco. O nome do seriado vem de um programa de rádio apresentado pela protagonista, que visa abrir os olhos dos estudantes e denunciar casos de racismo e tensões raciais no campus , que frequentemente são varridos para debaixo do tapete.

A mais nova série da Netflix tem um elenco incomum. Afinal, é raro produções com maioria negra, que dirá produções em que sejam contadas histórias de pessoas negras sem cair nos estereótipos fáceis e cômodos aos quais já estamos acostumados. Por ter um grupo diversificado de pessoas, cada uma delas tem direito a personalidade própria, o que é muito importante, pois não temos um negro token, aquele que só existe para que não possam dizer que não há negros na produção. O token teria que assumir várias características/estereótipos de um grupo em uma só persona. Como temos vários personagens, é dada a eles a chance de serem pessoas “de verdade”. Assim, temos os ativistas, a menina pobre que se une ao opressor para vencer na vida, o garoto rico que precisa ser perfeito para não ser discriminado, o rapaz que é negro e gay (sim, existem negros gays no mundo) e que é mais do que a soma de suas partes… etc., etc. Esta série nos dá a oportunidade de perceber que, não, não existe apenas um tipo de negro. Assim como as pessoas brancas, há vários tipos de pessoas negras no mundo. E isso é lindo.

Com relação à parte feia do mundo, a série vem nos mostrar o famoso racismo nosso de cada dia. E devo dizer que ele se manifesta de maneiras muito variadas. Pode estar na solidão de uma mulher negra, na criança que cresce achando que sua pele é feia, na microagressão das perguntas incômodas ou da famosa frase “questão de gosto”, pode, também, ser na sexualização e animalização de pessoas negras e aquele amigo (ou namorado) branco que não entende por que a situação vivida por sua namorada é racismo. Ou, pior, pode culminar em uma ameaça direta à sua vida, mesmo que não tenha cometido crime algum, exceto o de estar em um lugar onde não é desejado… enfim, o racismo se mostra de formas variadas na série. E eis porque, apesar da série não ser sobre você, cara pessoa branca, ela também é para você.

A comédia da Netflix traz muitas questões e mostra que certos comportamentos e pensamentos racistas não vêm de monstros, mas de pessoas, até mesmo de pessoas bem intencionadas, mas que direcionam suas energias de forma errada. E a série faz isso de forma leve, mas assertiva. Tirando por poucos momentos mais sérios, tanto no meio quanto no último episódio da temporada, Caras Pessoas Brancas traz um humor que diverte e faz refletir. Não é a série raivosa e promotora de genocídio branco que as pessoas brancas estão esperando apenas pelo fato da série não ser sobre elas.

Eu gostaria de poder ver uma história sobre pessoas negras que não fossem obrigadas a enfrentar o racismo de alguma forma. Mas, sejamos sinceros, ser negro é ter sua vida perpassada pelo racismo. Não interessa sua classe social, ele sempre estará lá. E Caras Pessoas Brancas apenas expõe essa face feia do preconceito em meio a importantes questionamentos sociais.