Overpower

(Como contar uma boa história se o seu protagonista é ele próprio um deus ex machina?)

Antes de mais nada: não sabe o que é deus ex machina? Confira aqui.

Conversando em um grupo do Facebook sobre a saga do Mago (Raymond E. Feist) e Bleach (o anime, não o sabão em pó), começamos um debate sobre protagonistas com excesso de poder. E devo dizer que eu até acho divertido. Afinal, se o vilão pode, por que não o herói? Se fosse na vida real, seria provável que ambos pudessem alcançar níveis infinitos de poder. O problema é contar uma boa história com isso.

Falando rapidamente sobre as duas obras:

Mago — que no original é Riftwar Saga, ou Saga da Guerra da Fenda — é uma história contada ao longo de anos, mas que começa com um garoto chamado Pug descobrindo possuir poderes mágicos e sendo treinado. As semelhanças com Harry Potter acabam por aí, tanto pelo fato de que a história vem antes e se inspira mais em Tolkien (sem copiar, no entanto), quanto porque Pug é apenas uma das peças de um intrincado quebra-cabeças que mistura humanos, povos míticos e dimensões paralelas. O objetivo, como sempre, é salvar o mundo (depois os universos) e temos vários personagens recebendo destaque ao longo da saga. No entanto, quando não estamos olhando, Pug sempre aumenta um nível…

Bleach é a história de Ichigo, um adolescente encrenqueiro capaz de ver espíritos que trabalha como shinigami (deus da morte) temporário após ser visitado por um desses seres e enfrentar um Hollow, um monstro do mundo espiritual. O garoto vai descobrindo mais sobre si mesmo com o passar do tempo, enquanto o mundo dos vivos e o espiritual entram em vários conflitos, à medida que ele e seus amigos começam a entender como o outro lado funciona. E, no meio disso, Ichigo vai ganhando mais e mais poderes…

Tirando a típica jornada do herói presente em boa parte das narrativas, o que mais se assemelha nas duas aventuras é o aumento indiscriminado de nível dos protagonistas. Eu poderia citar Dragon Ball também, mas lá tem outros personagens que aumentam suas habilidades, então vou me ater a esses dois casos. O problema, tanto em Mago quanto em Bleach, é que os protagonistas são Deorum ex Machinae em construção. Seres supremos capazes de resolver qualquer situação por milagre. Não acho isso necessariamente ruim, desde que a história seja bem contada e não tenha soluções fáceis demais. Afinal, se por vezes temos vilões muito difíceis que são derrotados de maneiras ridículas, por que não os colocar pau-a-pau com os heróis? E, se o vilão não vai descer ao nível dos heróis, fazer com que os heróis ascendam ao nível dos vilões? Se a história for boa, não há problema algum.

É complicado criar uma boa história com um personagem extremamente poderoso (overpowered), pois qual o desafio que aquele personagem vai enfrentar? É uma premissa tão complicada que, com o passar do tempo, aquele personagem chega a ter poder sobre o Big Bang porque seu inimigo também o teve. Mas, até aí, se o autor souber colocar isso de forma interessante, acompanhemos. Mas é difícil. Claro, no caso das duas histórias, nenhum dos personagens é deus ainda, eles começam como você, eu, seus amigos do dia-a-dia, etc. A partir daí, com o tempo, eles vão se desenvolvendo, aprendendo novos poderes, descobrindo um pouco mais sobre suas origens e percebendo que são mais poderosos do que imaginavam (ou se tornam mais poderosos). Digo que, até aqui, tudo bem. Nada contra personagens que evoluem, pois isso é possível. Agora, quando Pug se torna alguém capaz de resolver tudo muito acima do nível humano, caso ele não tenha um adversário à altura, seu poder fica sem alvo. Ou quando Ichigo acumula vários poderes e origens, quem será capaz de o enfrentar? Que tipo de história pode se contar sobre o homem que se tornou um deus? Na verdade, várias.

É possível contarmos muitas histórias sobre homens que se tornaram deuses, ou que são muito poderosos. As mais recorrentes são sobre seu senso de humanidade, sua capacidade de evitar se envolver em conflitos ou sua vilanização. Afinal, um homem que se tornou mais que humano pode ele mesmo querer julgar que o livre arbítrio dos outros é desnecessário e, com isso, tomar o caminho do autoritarismo. Boas histórias a partir daí ficam difíceis e a sagacidade ou troca de lugar com punhos capazes de explodir o universo, ou se torna enfadonha, já que o personagem se torna capaz de prever todas as ações do oponente, fazendo com que a história não seja mais tão boa assim. Claro, se a ameaça é de nível cósmico, um anula os efeitos do outro e os espectadores ficam felizes. Quanto ao homem que evita se envolver nos conflitos, ele ainda pode ser um juiz, ou um vigia, alguém que apenas narra as histórias de outrem, mas não toma parte. E, caso se opte pelo senso de humanidade, a pergunta mais recorrente que ele se fará é se ainda é humano ou como poder fazer para voltar a esse estado. Afinal, nem mesmos os deuses se satisfazem com facilidade, não é mesmo?

Personagens poderosos demais dão boas histórias? Acredito que sim, se bem acompanhados, assim como a jornada até esse excesso de poder também pode ser interessante de ser acompanhada. Contudo, há que ser observado: o herói pode se igualar ao vilão e crescer em poder. Porém, se isso não for feito de forma natural, a história corre o risco de falhar e se tornar chata e aborrecida.