A aposentadoria do sorriso

Quando a felicidade está muito além de mostrar os dentes

Brunno Lopez
Oct 30, 2018 · 2 min read
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Sobrevivia encomendando sorrisos que tinham fascínio pelo extravio. Logo, de fato, nunca chegavam ao seu destino. Apareciam em outros endereços que sequer os abriam pra ver. Morriam asfixiados nos envelopes. As caixas de correio eram cemitérios de boas notícias.

Esperava no portão tão enferrujado quanto seu otimismo, fixando os olhos no final da rua na esperança de ver a encomenda sorridente dobrando a esquina. Mas a única coisa que dobrava era a angústia.

Então aprendeu a viver sem a chamada ‘mais bonita curva da boca’. Não tinha um terreno fértil para o cultivo de gargalhadas, ainda que gostasse de andar sob dias chuvosos. Os mais insistentes ousavam tentar enxergar o tal sorriso através dos olhos, mas a manifestação prática de felicidade ou satisfação não era possível de ser percebida por nenhum método.

Desenvolveu uma certa predileção por tudo que emanasse naturalidade, logo, não conseguia se atrair por sorrisos forçados ou amarelos - uma testa franzida e um queixo caído lhe pareciam uma combinação muito mais interessante. Expressões que o mundo ignora passaram a ser o combustível favorito de seu radar emocional.

Era o prazer de sorrir ao contrário. Uma antítese que, curiosamente, conseguia ser mais verdadeiramente feliz do que a expressão de felicidade clássica.

Sorria pra dentro. Que é onde importa.

Brunno Lopez

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Já foi redator, roteirista, compositor e baterista. E continua sendo.