O flerte no trânsito

Atropelos de um amor que anda na faixa

Brunno Lopez
Jul 11, 2018 · 3 min read

"Te olhar é um desconforto pois as mensagens que recebo dos meus olhos são de que nunca serei capaz de contemplar sua incomum beleza na íntegra."

Disse isso e acelerou sem que o vermelho do sinal se transformasse na cor do passarinho que ela acabava de avistar. E estava ali, batendo as asas no meio da avenida cinzenta, mostrando aos pedestres e motoristas um contraste inesperado, que seria ignorado brevemente pois a vida tem mais urgência do que paciência — independente do nível de romantização da cena.

Num primeiro momento, soou assustador alguém parar ao seu lado, abaixar o vidro do carro (com alguma dificuldade, pois o sistema deu algumas travadas que adicionaram um ingrediente cômico na aproximação) e pronunciar uma frase consideravelmente estruturada a respeito da sua pessoa.

Em tempos de mediocridade de discurso, aquela investida a fez pensar. E também um pouco das buzinas dos veículos que se formaram atrás dela, pois continuava sem conseguir pisar no acelerador mesmo com o semáforo tão aberto quanto seu coração pós-flerte.

"E nem pra anotar a placa, caralho!", pensou. Mas logo imaginou um fato futuro ridículo: Ela, no departamento de trânsito, procurando por alguém apenas pelo número da placa do carro, que poderia muito bem ser produto de furto ou pertencer à mãe do condutor. E, além do mais, quem é que anota placa de carro quando temos a possibilidade de fazer um storie e pedir ajuda dos seguidores?

Pior que ela estava justamente fazendo uma selfie na ocasião. Era um puta good hair day que renderia alguns likes daqueles que sempre a decepcionaram emocionalmente mas nunca deixaram de achá-la diariamente bonita.

Engatou a terceira e atravessou a longa avenida na esperança de alcançar o 'poeta motorista' estacionado em alguma vaga proibida. Era uma distraída convicta e só conseguia se lembrar que o retrovisor do veículo do sujeito estava caído e batia na porta enquanto ele falava com ela.

"Será que era alguém fugindo de um acidente provocado por ele mesmo?" Sua mente criava novas teorias a cada quarteirão que passava. O celular saltava com as notificações da reunião que deveria estar presente em 5 minutos mas ela só conseguia ouvir o som do seu próprio coração batendo igual ao retrovisor.

E o som foi aumentando. O ruído metálico crescia junto com a pulsação cardiovascular. Não era exatamente a melhor trilha sonora para um série feita sobre a sua vida, mas dizem que não é saudável contestar as músicas que o destino nos oferece.

Em meio a este ritmo tribal misturado com os elementos de um trânsito caótico, ela finalmente se deparou com o veículo pilotado pelo cosplay de Shakespeare. Estava parado diante de uma linha férrea esperando a passagem de um possível trem.

Ela colocou a cabeça pra fora do carro tentando avistar algum sinal de locomotiva mas não conseguiu ver muita coisa. Outros carros a ultrapassaram e cruzaram a linha, enquanto ele continuava com o veículo parado.

"Será que ele morreu de coma alcóolico?". "Será que ele é um ex-maquinista com saudades do trabalho antigo?". E antes que fizesse mais conjecturas doentias, parou ao lado dele. Se deparou com um carro extremamente bagunçado, com folhas de papel espalhadas pelos bancos e o sujeito ao volante segurando algumas delas e lendo em voz alta:

-Te olhar é um desconforto pois as mensagens que recebo dos meus olhos são de que nunca serei capaz de contemplar sua incomum beleza na íntegra.

Ela então protestou:

-Você já me disse isso antes!

Ele, meio que saindo de um transe, respondeu.

-Do que você está falando? Eu tô aqui ensaiando um texto para um teste! Inclusive, já estou atrasado. Beijo grande.

E pisou no acelerador. Bem na hora que o trem estava passando.

"Ele sobreviveu?" Sim, pois conseguiu chegar ao local do teste.

E ela também conseguiu chegar na reunião, que era sobre a escolha de novos talentos para o time de atores da companhia de teatro, da qual era presidente.

Quer dizer que seus belos olhos chegaram até o final do texto, né? Então, para que mais pessoas possam ter a mesma experiência adorável que você teve (prepotência detected), clique nas palminhas fofas no máximo até 50 vezes.

Pode comentar também, tenho uma preocupante predileção por debates utilizando teclados em CAPS LOCK.

Brunno Lopez

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Já foi redator, roteirista, compositor e baterista. E continua sendo.