Tire os olhos do seu próprio umbigo

Ou “Porque apoiar uma causa social não automaticamente te livra de preconceito”


Alguns movimentos sociais só crescem em popularidade, e pautas como casamento igualitário e a legalização da maconha deixarem de ser causas idealistas de “viados” e “maconheiros”, e se tornaram assuntos de interesse para grande parte da população (apesar de um grande conservadorismo estar dando as caras também).

Como todos podemos ver, as animosidades entre os “gayzistas”, “feminazis”, “abortistas”, “maconheiros” e os “coxinhas”, “fascistas”, “crentelhos” estão altas, mas, por mais que você tenha uma opinião contrária, nada justifica uma falta de respeito e uma agressão.

Mas, apesar de eu apoiar essas causas, algumas coisas me irritam profundamente em alguns outros apoiadores dessas causas, como a arrogância e a petulância que muitos exibem, geralmente com orgulho. Quando você, por mais bem-intencionado que esteja, ofende uma pessoa com uma opinião contrária a sua, você não é moralmente superior que ela, mesmo que você esteja o fazendo por “um bem maior”.

Outra presunção que geralmente surge é a ideia de que, já que eu defendo uma causa, eu automaticamente não sou preconceituoso. Você pode ser feminista (ou pró-feminista) e machista, apoiar o casamento igualitário e ser homofóbico (ou lesbo/bi/transfóbico), lutar contra o preconceito e ter algum tipo de preconceito racial arraigado em você. O processo de desconstrução de preconceitos não acaba. Eu, como homem cis branco, estou em um caminho muito mais comprido e tortuoso do que, por exemplo, uma mulher trans lésbica. Mas isso não torna o processo de desconstrução menos importante de ser feito.

Pode soar bizarro que alguém que levanta uma bandeira dessas reproduza qualquer tipo de preconceito, mas é mais comum do que se imagina. E as lésbicas bifóbicas? E as feministas transfóbicas? E os gays mais heteronormativos que falam mal dos mais efeminados?

Esse tipo de preconceito só enfraquece os respectivos movimentos, pois causa brigas e desentendimentos internos, o que não ajuda nada a acabar com qualquer opressão.

É preciso jogar fora a pré-concepção que você está livre de preconceito, porque ninguém é 100% livre. Algum resquício, por menor que seja, você vai ter. Por isso que peço que, feministas, não pensem que não reproduzem nenhum sexismo/preconceito. LGBTs e aliados, não assumam que não reproduzem homo/lesbo/bi/transfobia/qualquer outro preconceito. Queridos que lutam contra o racismo, não assumam que não reproduzem nenhum tipo de discriminação racial/qualquer preconceito.

Para uma pessoa ser de uma minoria e reproduzir algum preconceito, ou essa fobia está muito arraigada em sua mentalidade, ou ela realmente não percebe seu preconceito, pois ganhar com isso ninguém tá. Se você não quer ser oprimido, não contribua com a opressão do coleguinha.

E como Raul disse, e que eu acho que todos deveriam aplicar em suas vidas:

Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.