#aforismo — ousadia do pensamento
A ousadia do pensamento parece ter sido interditada. Seu sinal é o acanhamento daquele que diz, timidamente, o que pensa - talvez evitando o julgamento alheio como compensação da falta de confiança em si próprio. O pensar, que antecipa e experimenta o que ainda não é, indica o universo simbólico e a imaginação criativa do ser humano. Quando a mera possibilidade de imaginar algo radicalmente diferente, com toda sua "audácia especulativa" está embotada, significa que a dolorosa realidade já colonizou até mesmo o mais íntimo recôndito das ideias, e a catástrofe parece iminente. E talvez a catástrofe já tenha chego, enquanto a esperávamos: uns com temor, outros com esperança. Nesse quesito sempre a arte teria muito a contribuir, positiva ou negativamente, para que pensássemos no que nos levou a esse medo de pensarmos numa vida radicalmente diferente. Talvez a própria plasticidade deste fenômeno, exposto artisticamente, pudesse nos assustar, ou produzir um estranhamento tal como aqueles que estão "à espera de Godot"; e, diante desse exorcismo artístico de nosso mal, purgarmos o que nos bloqueia, e nos incentive à coragem de sonharmos e almejarmos um horizonte de alegria, justiça e bem-estar. Deste modo, a coragem de termos ideias das mais diversas e inesperadas antecipem a própria possibilidade de produzir um novo estado de coisas. Enquanto perdurar o medo de um pensamento que vá além da identidade estabelecida, não produziremos senão um eterno retorno do mesmo, compulsão da própria repetição, ideologia entranhada como acanhamento. "Sapere aude, Cogitare aude".
