O vilão.

Faz muito tempo que eu quero contar o que aconteceu, mas ao mesmo tempo eu queria fingir que nada tinha acontecido. Por vários acontecimentos nessa semana eu tive que tocar no assunto e decidi que era melhor escrever um textão para colocar tudo isso para fora.

Já aviso de ante-mão que vou ter que abordar assuntos como abuso, violência psicológica e até física. Se isso é um gatilho pra você, não continue. Ou continue, mas lembre-se que eu avisei.

Em 2016 eu conheci uma pessoa que por muitos meses ficou apenas como mais uma carinha no meu Facebook, não tínhamos amizade e muito menos intimidade, até que ele se separou. Fez uma postagem bem triste dizendo que estava mal por ter sido largado pela mulher que até então dizia que daria um filho a ele. Sou coração mole, e me comovi. Mandei uma mensagem dizendo que ele tinha com quem desabafar se quisesse.

Conversa vai, conversa vem, e acabamos nos envolvendo. Eramos duas pessoas solteiras, não tinha nada que nos impedisse. Numa das minhas visitas a minha cidade natal, nos encontramos numa estação do metrô. Fiquei três horas em pé esperando por ele, quase não almocei. Ele chegou, fomos pro lado de fora da estação e nos beijamos, até o limite que eu tinha de horário.

Chegou o dia da Parada LGBT, meus amigos mais próximos sabem que esse dia ficou marcado em mim e em todas as minhas amizades. Eu estava planejando ir no evento desde o começo do ano, era a primeira vez que eu iria e queria que fosse um marco na minha vida depois que saí do armário. Viajei para SP, passei a noite em uma tia e por muita insistência, ele topou ir comigo. Juntei todas as moedinhas que eu tinha para pagar as passagens dele, eu ficaria sem almoço e sem dinheiro para nada durante o evento, mas quem se importava? Eu estaria com ele, e com os meus amigos.

Ele se atrasou de novo, deveríamos chegar no local do evento ás 11h, já eram 12h e ele ainda estava chegando. Fomos pra Parada e na saída do metrô, eu fui roubado, levaram o meu celular. Gravem isso porque mais tarde vai ser importante. Sem ter como nos comunicar com o amigo que eu tinha combinado de encontrar, ficamos a esmo pela avenida tentando encontrar onde o grupo de homens trans estava.

Depois de quase uma hora consegui avistar meus amigos e fiquei mega aliviado. Estava com tanta saudade, mas tanta saudade, que grudei nos meus melhores amigos como chiclete. Apresentei ele para eles e continuamos curtindo a bagunça.

A Parada é uma bagunça, quando o desfile acaba e tudo vira uma balada gigante, é fácil se perder dos seus amigos. Sem contar que muitas pessoas bebem demais e perdem o senso do limite. Estávamos desfilando sem camiseta como uma forma de protesto, alguns com o peito totalmente nu, outros tampando os mamilos e eu com a faixa compressora. No fim do desfile pediram para que colocássemos as camisetas de volta, porque pessoas bêbadas estavam começando a nos assediar, puxar pelo braço e querer passar a mão.

Um dos meus melhores amigos é um rapaz lindo, alto, magro, de cabelos longos e sorriso largo. Querendo ou não, a beleza dele chama a atenção, e sem camiseta, parecia que chamava mais ainda. Um cara extremamente abusado começou a querer afastar ele do grupo, puxando-o pelo braço. Sem saber o que fazer (o cara era enorme perto de mim e do meu amigo) eu abracei-o pela cintura e disse que ele estava comigo, que era meu namorado e que era para esse cara se afastar. Ele pediu desculpas e se afastou, pra 10 minutos depois, voltar e tentar de novo. Segurei meu amigo pela cintura e fui ainda mais duro com o cara, pedindo pra ele parar de insistir.

Isso foi o motivo pelo qual o rapaz que eu estava realmente ficando, fechar a cara e se afastar de mim. Aquela minha atitude foi tão natural para mim que logo depois que o susto passou, eu continuei rindo, dançando e pulando, e não entendi porque ele estava tão irritado. Discutimos e ele queria ir embora de qualquer maneira, eu baixei a guarda e pedi para que ele ficasse, e curtisse mais com a gente.

Ele ficou até a hora de ir embora, juntamos nossas coisas e fomos para o metrô. Enchi meus amigos de beijos, disse que os amava mais que tudo no mundo e fui embora. Eu sou uma pessoa muito carinhosa, do tipo que abraça, beija, faz carinho no cabelo, anda de mãos dadas, até com os meus amigos. Ele quis me deixar na rodoviária, e no meio do caminho entre as duas estações, pedi ele em namoro e ele recusou. Mesmo assim, me deu um presente de dia dos namorados, dias depois.

Em uma das minhas idas para SP ele me convidou para dormir na casa dele, eu aceitei e mesmo depois de arranjar uma briga com a minha família por isso, eu consegui ficar. Foi naquele dia que a gente tinha começado a namorar, e por conta da fama que ele tinha na comunidade trans, todo mundo ficou sabendo. Enquanto ele tomava banho, peguei o seu computador e acessei meu Facebook, e esqueci de deslogar quando fui embora no dia seguinte. Esse foi o maior erro que eu cometi. Quando cheguei em casa, ele me mandou mensagem por inbox querendo saber se eu tinha chegado bem, respondi que sim e fui ver o que tinha de interessante no resto do meu feed e ver os comentários na atualização de relacionamento.

Aquele meu melhor amigo, da Parada LGBT, postou uma foto bonita, sem camiseta, com uma frase sensual, e eu curti. Assim que ele recebeu a notificação, ele comentou na própria foto dizendo que eu estava na foto. Aquilo era uma brincadeira entre a gente, eu estava na foto porque ele estava usando o colar que eu dei de presente para ele. Na hora meu inbox apitou, era meu namorado, me questionando sobre aquela conversa na foto. Ele chegou a cogitar que a legenda da foto era pra mim. Baixei a guarda de novo e conversei com ele até ele se acalmar e entender que não tinha nada haver.

Estava tudo tranquilo até que ele voltou a me bombardear de mensagens, eu achei estranho porque ele não me mandava tantas mensagens seguidas. Ele estava fazendo o maior drama, perguntando porque eu tinha feito aquilo, porque eu tinha mentido sobre amar ele, se ele era só um brinquedo pra mim… Ele tinha entrado no meu Facebook, lido conversas com os meus amigos. Um deles, lógico, era esse meu melhor amigo, que no passado já tínhamos ficado e tínhamos trocado mensagens de amor um com o outro.

Não satisfeito em fazer todo esse drama, ele começou a mexer com o meu psicológico, a dizer que ninguém além dele me aceitaria como eu sou. Que eu nunca encontraria alguém melhor que ele. Sabendo como ele era, eu sabia que ele iria fazer um post enorme no Facebook falando mal de mim, e distorcendo o que aconteceu. Eu entrei em pânico.

Para quem não sabe, além de depressão, eu tenho ansiedade e sou borderline. Nesse coquetel explosivo de problemas psicológicos existe o medo da rejeição, que começa na ansiedade, agrava no borderline e piora na depressão. Entrei em crise, quis me matar, parece exagero mas… pra mim não é. Prometi e fiz coisas tão idiotas que hoje eu não consigo nem sentir raiva de mim mesmo, só pena.
Uma delas foi ter trocado a senha do meu Facebook para o nome dele, e ter dado livre acesso.

Se tem uma decisão na minha vida que eu me arrependo, foi essa. Eu comecei a me sentir perseguido, me sentia vigiado o tempo todo, media tudo o que eu falava para os meus amigos. Sabia que ele estava lendo. Abria as configurações do Facebook e via que ele tinha logado na minha conta. Eu não conseguia mais suportar aquela situação, e sem celular (lembra?) eu não tinha como pedir socorro. Eu sabia que se eu fizesse algo que ele não gostasse, ele faria tudo de novo. Eu tinha crises atrás de crises.

Podem me perguntar, por que eu continuei com ele, por que eu simplesmente não terminei o relacionamento, a resposta mais simples que eu posso dar é “eu não sei”. Não conseguia.

O ponto final começou numa festa que fomos juntos. Ele passou a festa toda me podando de beber e tomando todas. No fim, eu fiquei bem e ele, completamente bêbado. Chegamos na casa dele e ele começou a querer brigar comigo por besteiras. Primeiro a toalha molhada em cima da cama, depois a corrente dele que caiu pro lado de fora da casa e eu não deixei ele buscar, depois as cobertas da cama que estavam na ordem errada.

Nessa altura eu não queria mais nada, queria dormir para ir para casa logo. Na tentativa de pegar a corrente ele machucou as duas mãos e isso o deixou mais inflamado ainda. A sensação que eu tinha era que ele podia virar a mão na minha cara se eu falasse qualquer merda. Deitei no canto da cama e fiquei, imóvel, tentando pegar no sono. Ele voltou e deitou do meu lado. Pediu desculpas, disse que estava bravo porque era a unica corrente que ele tinha. Me beijou e me abraçou, pedindo desculpas de novo.

Minutos depois nós estávamos transando, me desculpem por contar sobre isso, só que no nível que ele estava, ele começou a me machucar. Tentei tirar ele de cima de mim umas três vezes, mas ele era mais forte do que eu imaginava. Depois de muito lutar, consegui sair daquela posição, e tentei dar uma desculpa pra gente deitar e dormir, mas ele ainda insistia. Ele só sossegou quando eu consegui fazer ele gozar, depois de muito custo.

No dia seguinte, levantei e fui pra casa. Ele agiu estranho em todos os outros encontros e eu decidi que na primeira oportunidade, eu terminaria com ele. Terminamos em uma briga horrorosa, onde ele, além de dizer todas as babaquices que ele já tinha dito, confessou que tinha se segurado para não me trair várias vezes. Um mês depois eu descobri que na noite da festa, ele tinha ligado pra ex, pedindo para voltar, enquanto eu estava dormindo do lado dele.

Durante a discussão, ele entrou no meu Facebook novamente e leu a conversa que eu estava tendo com um amigo. Ele distorceu tudo, dizendo que eu estava me oferecendo para ele segundos depois de terminar. Eu fiquei puto, disse que eu estava me sentindo perseguido por causa dele, porque ele entrava na minha conta pra ler minhas mensagens. Ele negou, disse que aquela era a primeira e unica vez que ele fez isso, e que tinha feito pra saber se eu “merecia” o amor dele. Me senti um burro por não ter tirado prints de todas as vezes que eu vi que ele estava online.

Mudei a senha do Facebook, bloqueei ele em todas as minhas redes sociais, e nessa descobri que ele tinha quatro contas diferentes. Ele ainda tentou me mandar mensagens, cheias de emojis chorando, que eu simplesmente ignorei.

Nesse tempo que passamos juntos eu me afastei de muitos amigos, principalmente daqueles que ele tinha criado um ciumes doentio. Um deles, um dos rapazes que eu fiquei uns dias antes de ficar com esse meu ex, ficou extremamente chateado comigo. Inclusive quase perdi meu melhor amigo. Quando o furacão passou, eu fui atrás de todos eles, pedi desculpas, conversei, expliquei o que aconteceu. Ainda bem que não perdi pessoas que amo demais, e mesmo que nosso relacionamento tenha ficado abalado, eu consegui corrigir.

Mas esse rapaz, que estava ficando comigo antes do “incidente A” (como eu gosto de chamar meu relacionamento abusivo) agiu como se eu fosse totalmente culpado pelo o que aconteceu… com ele! Nós conversamos e ele me disse que estava chateado e que demoraria pra voltar a ter carinho por mim. Eu concordei com ele, disse que não queria perder a amizade.

Para a minha surpresa, dias depois ele fez um comentário, no post de um amigo em comum, falando sobre um “ex crush” que ele teve. A descrição batia exatamente com o que tinha rolado entre a gente. Só que ao invés de dizer o que realmente aconteceu, ele dizia que eu o tinha enganado, que eu tinha prometido mundos e fundos e virei a cara. Que eu tinha abandonado-o.

Eu sei que você está lendo isso, eu sei que com certeza esse texto chegou em você. Eu sei que você sabe que eu estou falando de você. Depois de ter visto eu mexer na ferida de novo, de ter remexido um machucado que ainda não sarou, de ter colocado meu coração para fora e deixado explícito o que me aconteceu… Me responde:

O vilão ainda sou eu?