A Esquerda nasceu preta?

Parto dessa pergunta para que possamos pensar alguns elementos para que coloquemos luz numa discussão importante: a questão do conceito clássico de Esquerda e o que Esquerda deveria efetivamente significar.

Quando Douglas Belchior esteve em Belo Horizonte em maio de 2016, ele lançou a seguinte pedrada:

Se a Esquerda [tradicional] quiser ter alguma moral, querido, baixa a guarda e entrega [a política] pros pretos!

Douglas Belchior é professor e militante do movimento negro de São Paulo/capital. Conheci-o num encontro de formação que aconteceu em Belo Horizonte em 2014, na sua segunda vinda à cidade a convite de um grupo específico (a primeira vez fora em fevereiro, para um seminário sobre violência e juventude). Pré candidato a vereador na maior babilônia da América do Sul, Belchior foi convidado em maio de 2016 pela movimentação Muitas pela Cidade que Queremos para dar uma palavra sobre participação política preta em um encontro realizado no Barreiro — mais precisamente, embaixo do Viaduto Santa Margarida. O evento em si poderia ter sido melhor explorado e ter havido mais adesões, mas sabemos das limitações de uma parte da galera em se deslocar a quebradas do naipe do Barreiro-Texas.

Belchior é o de boné amarelo, empunhando o microfone.

O encontro foi destinado, como disse, a pensar uma maior efetividade da participação negra na política. E não estou falando de qualquer política (ou da “Nova Política”, conforme defende Marina Silva), mas da política que vise denunciar os descasos com a população negra, as violências lentas cotidianas e o processo de genocídio de um povo por meio da aculturação dos seus valores e pelo adoecimento psicológico. Porque, na boa, podemos pensar que o espectro de participação política da população preta pode ser amplo, mas eu ainda tenho certas questões pessoais em assimilar, por exemplo, a existência de um grupo chamada Tucanafro. Isso é uma contradição em termos, mas que não é o foco da discussão aqui empreendida.

Havia no local a presença de pré-candidatas e pré-candidatos a vereador/a por Belo Horizonte e outras cidades da Região Metropolitana. Após o momento de fala de cada um/a, Belchior tomou a palavra e discorreu sobre a importância de, neste momento, darmos cada vez mais luz e direcionamento a candidaturas negras. E o mais interessante na fala dele, na minha opinião, foi quando ele lançou uma discussão sobre a origem da Esquerda no Brasil. Especificamente no Brasil, que é o contexto no qual nos colocamos.

Teria quando nascido a Esquerda no Brasil? Quando é que poderíamos pensar que existiam pessoas que, ansiosas por uma mudança na sociedade, enfrentaram o status quo? Se analisarmos os escritos, os registros sobre esse nascimento, podemos pensar que teria início quando vieram os operários estrangeiros, oriundos da Europa, para trabalhar como imigrantes no nosso país. Talvez, também, tenha surgido uma consciência de transformação social no processo de industrialização do país, com a formação de uma massa operária que, influenciada pelas experiências de revolução fora do Brasil, desejavam utopicamente transformar o país numa pátria mais igualitária. E há quem pense que a Esquerda somente existiu mesmo depois do nascimento do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e da Coluna Prestes, a que se atribui ser o primeiro “rolêzinho”.

Aponte-se para um dado interessante, entretanto. O século 19 (anos 1800) foi um período de intensa movimentação social, de intensas revoltas, de intensos e variados conflitos. Não foi um século tranquilo, por mais que, nas nossas aulas de História, tendamos a nos focar mais em eventos externos ao Brasil que internos; sabemos com mais tranquilidade como se deu a formação do Império Austro-húngaro, mas não entendemos direito o que foi a Balaiada, a Sabinada, a Revolta dos Malês e outros confrontos. E mesmo antes do século 19, mas no século 17 (anos 1600), havia indícios de que existiam pessoas descontentes com o sistema vigente aqui.

Não, não falo dos inconfidentes ou de outros personagens da “História”. Foi no século 17 que os navios que transportavam pessoas da África para cá, escravizadas, retiradas a força do seu lugar de origem. (Que se dane se lá na África havia processos de escravização também, eu estou jogando a lente para o nosso contexto. Não é o momento de aprofundar nisso agora, entre na fila.) Essas mesmas pessoas escravizadas, por mais que a “História” insista em nos contar, não eram bestializadas sequer ignorantes. Acredito na hipótese do Belchior que coloca os negros aqui no Brasil, por meio dos quilombos e outros movimentos, os principiantes do que conceituamos Esquerda no país.

Essas pessoas, ao se refugiarem em quilombos, tinham uma proposta: um novo projeto de sociedade que fosse diametralmente oposto ao que eles vivenciavam no processo de escravização. Opa, aí então temos uma chave importante: a mudança do status quo. Se entendemos que ser de Esquerda é atuar para mudar a situação vigente em vistas de uma sociedade menos desigual; se entendemos que ser de Esquerda é enxergar um novo mundo no qual as opressões possam ser enfrentadas e onde povos e pessoas marginalizadas possam se situar no centro das atenções; se pensamos em transformação social em benefício de uma coletividade, sim, pensamos pela via da Esquerda. É por esses motivos que acredito ter nascido preta a Esquerda no Brasil.

Logotipo do Movimento Negro Unificado, articulação preta nascida na década de 1970. É um grupo de esquerda, não da Esquerda (tradicional).

Para variar, enquanto militantes de Esquerda não entendemos isso. Resumimos a Esquerda a Marx e cia, sendo que Marx em si mesmo não era “de esquerda”, mas foi apropriado por ela. Temos uma noção medíocre e míope de entender Esquerda como a pessoa que veste Che Guevara e boina comunista. Não conseguimos entender que a participação preta nas lutas por justiça social é quem embasa toda e qualquer luta por justiça social neste país.

E isso nos faz retornar à sentença de Belchior no início do post:

Se a Esquerda [tradicional] quiser ter alguma moral, querido, baixa a guarda e entrega [a política] pros pretos!

Significa dizer: se as correntes tradicionais da Esquerda não enxergarem o racismo institucional que há nelas e que as impede de agregar mais militâncias negras nos seus “quadros”, elas estarão fadadas a perpetuar as diversas violências já existentes no nosso país. Se a Esquerda tradicional desejar relevância no processo de mudança social, é hora de escutar com mais cuidado o que a galera preta tem a dizer. Se a Esquerda consolidada quiser avançar, quiser realmente mudar o status quo, ela não fará isso sozinha sem a presença preta dentro dela.

Baixar a guarda, na frase, quer dizer exatamente isso: largar dos velhos vícios de só ter lideranças de um segmento social e abrir espaço para, sim, uma ocupação preta da Esquerda, retomando o seu lugar de direito. Se a Esquerda não está preta e se há dificuldade de empretecer a Esquerda, isso não é culpa dos pretos, que sempre foram colocados em segundo plano — não é à-toa que Carlos Moore tretou com a Revolução Cubana. Pode ser que esteja na hora de essa Esquerda consolidada reconhecer a paternidade do seu movimento, não é?