Cante, Menestrel, mas não seja apenas eco

Cena de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado, na qual Sir Robin segue em sua jornada na companhia de seu menestrel. A legenda acima é um trecho do cântico.

Menestréis são figuras importantes na nossa literatura, considero-os importantes cantadores, pessoas que sabem bem e melodiosamente contar uma história. Menestréis são hábeis articuladores das palavras. Estariam “um nível acima” dos poetas, agregando características destes com a musicalidade que lhes é inerente.

Menestréis são conquistadores, ainda que suas aparências físicas não sejam lá as das mais agradáveis. Mas eles têm uma coisa que encanta, tal qual o canto da sereia, tal qual um boto. Sim, menestréis, no nosso equivalente cultural, seriam botos. Seduzem e conquistam, trazem para perto, te convencem daquilo que estão cantando.

Menestréis, esses artistas da vida, geralmente são ligados à Alta Corte, ao rei principalmente. Quem não se lembra de alguns filmes sobre os reis medievais nos quais apareciam sempre duas figuras: o galante menestrel e o comediante bobo da corte. Ah, o bobo da corte, essa figura tão zoada e incompreendida, cujo único intento, cujo único dever é fazer rir a corte. E que riam dele, não para ele: faz parte do trabalho do bobo da corte ser visto como produtor de riso alheio.

Do outro lado, menestréis cantam e encantam, seduzem e traduzem para uma linguagem audível um puxa-saquismo ao rei do tamanho da corte. Eis onde mora o perigo do menestrel. Com seu instrumento afinado — seja um alaúde, um violão ou uma caneta-tinteiro — , eis que o menestrel canta o canto que a corte quer ouvir. Jamais ele vai cantar algo que contrarie a corte, muito difícil de isso acontecer.

A corte do menestrel hoje se apresenta de várias maneiras. Como nos situamos em tempos tecnologicamente avançados, aparecer por aí com um alaúde pode ser visto com algo, digamos, antiquado. Os menestréis atuais vestem terno, se barbeiam, são esguios e têm uma oratória tão refinada que te faz perder no seu belíssimo cântico pré-formatado. Longe de serem improvisadores, os menestréis já chegam com o cântico pronto, ensaiado, na ponta da língua. Alguns desavisados da corte vão pensar que estão vendo um improvisador, o que é irreal.

Os menestréis de hoje usam até apps de smartphone para saber quais cânticos cantar à sua corte. Jamais — eles jamais — vão destoar daquilo que seu séquito defende — por mais que seja incoerente com os seus cânticos anteriores. De longe, pode parecer que o menestrel esteja simplesmente aplicando o conceito de Democracia Representativa: vai lá, meu cantor, e cante meu canto para mim. Cante o que eu quero ouvir, não o que tem que ser cantado. Eis a chave.

Um menestrel moderno é aquele que se vale de uma representatividade quiçá expressiva para ecoar seu canto dentre os outros. Não se trata de alguém com expressividade própria, mas tal como o eco só existe a partir da voz do outro, eis o que é o menestrel moderno: um mero eco despersonalizado do que é repetido por aí como canto, como cântico. Sem criatividade para criar a partir do que já está dado, o menestrel moderno (tal como um papagaio) apenas repete, repete, repete o que está sendo cantado sem sequer se perguntar “uai, mas o que cês tão cantando?”.

Como disse Bela Lugosi em Glen or Glenda:

Beware! Beware of the big green dragon that sits on your doorstep. He eats little boys… Puppy dog tails, and BIG FAT SNAILS… Beware… Take care… Beware!
[Cuidado! Cuidado com o grande e verde dragão que se senta na sua porta. Ele come criancinhas… Caudas de cachorrinhos e GRANDES E GORDAS COBRAS… Cuidado… Tome cuidado… Cuidado!]

A habilidade comunicativa e retórica dos menestréis é absurdamente encantadora, eu admito. Admiro-os na sua capacidade eloquente de saberem se posicionar, se colocar — habilidade que estou ainda construindo. No entanto, menestréis são figuras carimbadas e conhecidas do nosso feudo. Eis que é preciso prudência e parcimônia antes de simplesmente acreditar no que eles dizem. Se o menestrel já é o eco, reverberá-lo é tornar-se eco do eco.