Produtores de eventos de BH, tenham misericórdia com o seu público

Os closes errados do BH MUSIC STATION de 2016 que me fazem pensar: o que diabos está acontecendo?

Eu tava morrendo de saudades de ver um show do Nação Zumbi. E, de quebra, queria também conferir um pouco da Dona Onete, cantora lá do Pará que já veio mais de uma vez a Belo Horizonte, mas não pude comparecer em nenhuma outra apresentação sua. O BH Music Station de 2016 me fez essa gentileza de juntar dois grandes nomes da música brasileira contemporânea num só evento. Que massa!

Bom, deixa eu ver então quanto está o ingresso. Tenho notícias de que em edições anteriores o Music Station praticou preços salgadinhos. E não é que a prática se repetiu? Minha sorte é que estou novamente estudante e pude pagar a bagatela de 50,00 pela meia entrada. Para quem ganha pouco mais de dois salários mínimos trata-se de uma facada na aorta e um corte fundo na jugular, ao mesmo tempo. Sangramos, mas sabemos que o evento vai ser bacana. Pelo menos acreditamos. Afinal de contas, apesar de não ter ido em nenhuma outra edição, quase sempre tive boas referências do evento — que era um esquema diferente, com música no trem, viagens descoladas etc. Dessa vez, em vez de haver apresentações em algumas estações de trem, elas foram concentradas dentro dos vagões dos trens e no que foi chamado de “Estação Oficina”, um palco montado na garagem dos trens que fica depois da Estação Eldorado. (Bem que a CBTU, responsável pelo metrô de Belo Horizonte, poderia pensar um “Music Station” permanente nos vagões. Seria interessante para divulgar a cena musical local.)

Entrei no site da Central dos Eventos. A princípio, pensei que somente ela estava vendendo os ingressos para o show. Seu site aceita somente cartão de crédito (close errado nº 1), e tive que me deslocar para a Savassi e comprar o tíquete na sua loja física, na Fernandes Tourinho (perto do Rei do Pastel 2 e da finada Velvet). Ao chegar lá, fui informado que o preço final do ingresso, embutida a “taxa de administração”, ficaria em 55,00 somente se eu pagasse em dinheiro — no cartão, mesmo débito, o ingresso se inflacionaria para 63,00. Treze reais a mais do que o preço original. Treze reais só de “taxa de administração” da Central dos Eventos (close errado nº 2). Sorte minha que estava com cash na carteira, se não ou iria morrer em 63,00 no cartão ou teria que bater pernas pela região da Savassi (que há muito não frequento) para procurar um banco para fazer um saque para pegar um dinheiro para poder pagar o ingresso para poder ir ao show. Achei muito abusiva essa taxa, que onera em mais de 20% o preço do ingresso.

Bilhete comprado, então vamos. Comprei o ingresso para o dia 27 de agosto, que era o dia de Dona Onete e Nação Zumbi. Um showzinho de música instrumental fazia as vezes de “esquenta” na porta da entrada da Estação Central — é assim: você compra o ingresso, embarca na Central e o trem te leva até o local dos shows, no galpão que mencionei, depois da Estação Eldorado (em Contagem). Deu uma da manhã e resolvi embarcar. No corredor que dá acesso à plataforma, um DJ e um cenário psicodélico ambientavam quem chegava para pegar o trem, que sempre partia muito cheio (coisa com a qual estou acostumado, pois não pego transporte público somente nesse tipo de situação). Entretanto, mesmo com uma alta demanda, o intervalo entre os trens chegava a ser mais de 30 minutos (close errado nº 3). O vagão que peguei saiu 1h10 e chegou no palco às 1h30, aproximadamente. O trem para numa plataforma já dentro do local do evento, o que achei mesmo interessante — mas, por outro lado, somente um trem de cada vez poderia parar (se pelo menos dois trens pudessem parar por vez, acho que esse problema do intervalo poderia ser diminuído).

Desembarquei com Dona Onete já no meio do seu show. “Puxa vida, pensei, devo ter perdido boa parte do show”. Meia hora não foi suficiente para me satisfazer do som do Pará, e vou ter que na próxima vez que Dona Onete vir comparecer. Findo o show dela, resolvi comprar algo — uma água, para ser mais exato. Qual não foi meu susto, minha perplexidade, minha surpresa ao me deparar com o quadro de preços que cobrava 6,00 por uma garrafa de 300 ml de água (que nem Perrier era). E qual não foi meu susto ao ver que a latinha de 350 de Skol (que nem é cerveja direito) ao preço de 8,00 a unidade (close errado nº 4). Que viagem (com trocadilhos) foi essa de superinflar os preços dos produtos no evento? De quem foi a infeliz ideia de, visto estarmos num lugar isolado que somente pelo trem poderíamos acessar, colocar os preços dos produtos tão altos assim?

Fiquei atônito. E brochei com o evento. Não por completo, porque ainda viria Nação Zumbi e meus 55,00 teriam que valer a pena. Sim, valeram: a única coisa que não percebi como equivocada foi o show do Nação. Nem cabe discorrer muito, os caras são incríveis — e reparei que Jorge du Peixe está cada vez menos travado no palco, isso é bem massa! Para não dizer que só falei de closes errados, tá aí uma coisa que foi acertada: chamar o Nação Zumbi para, mais uma vez, dar o tom do evento.

De resto, não sei o que dizer nem o que pensar. Acho incrível que pode passar pela cabeça de uma produção de eventos que pode rolar um vale-tudo na hora de se fazer os shows. Ainda mais sendo um evento subsidiado por meio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura. Talvez esse clique tenha se dado na hora que eu vi os preços dos produtos já lá dentro do show — óbvio que me assustei com o preço salgado e com a prática abusiva da Central dos Eventos, mas pensei que isso pararia por aí. Quão ingênuo sou.

O perfil do público do Music Station nem é, digamos, o mais “top” da cadeia econômica. Predominantemente é, sim, um público classe-média, média-alta, mas não a mesma galera que vai num Woods, num Chalezinho (racista da porra esse lugar!) ou em outro rolê de 40 reais a entrada no que chamo “Circuito S”: Savassi, São Pedro, São Bento, Santa Lúcia, Sion, Santo Antônio, tudo bairro da Zona Sul. Eu, que frequento mais os eventos alternativos de Belo Horizonte, pensei que o Music Station se destinaria a tal público por conta das atrações que chamou. Que pena ter tanto close errado num evento que eu considerava uma proposta diferente de intervenção cultural na cidade, mas que — para variar — foi absorvido pela sanha gananciosa de seus organizadores.

Uma última coisa: espero que o valor arrecadado com os abusivos preços de ingressos e produtos seja bem distribuído entre a galera que lá trabalhou. O evento não estava vazio e acredito ser justo um bom pagamento a quem fez o evento funcionar — estou falando é da peãozada que estava no balcão servindo cerveja, limpando o espaço, arrumando o som das bandas. Se for para pagar um preço caro mas que seja justamente distribuído para essa galera, aí penso se vou de novo nesse trem de Music Station.