Quando a militância demanda ansiedade

Sobre quando o movimento era para ser de cura, mas se transforma em mais um gatilho emocional

É a Semana da Luta Antimanicomial. Uma semana na qual refletimos (mais do que no resto do ano) sobre as loucuras que nos atacam, que nos acometem, que nos afligem. É uma semana dedicada a pensar como está nossa sanidade mental, cada vez menos sã, cada vez mais ansiosa. Cada vez menos saudável.

Dentro dessa questão de se pensar as ansiedades no mundo contemporâneo, quero compartilhar nesta prosa sobre uma paradoxal situação: de como a militância em algum movimento social pode, ao mesmo tempo, curar nossas psiquês e aumentar nossas psiquês. A militância pode simultaneamente nos curar e nos adoecer. A militância pode ser essa contradição. E é isso que eu sinto.

A ansiedade que nos acomete enquanto integrantes de um grupo ocorre pelo fato de esse grupo ter uma visão teleológica das coisas: de querer que, no fim, as coisas melhorem, se resolvam, para que esse movimento deixe de existir. Um movimento antirracista só tem finalidade e propósito de existência enquanto existir racismo. A bem da verdade, eu sei bem que (no nosso exemplo) o racismo não será extinto da terra — ou da Terra. Então por que militar numa luta antirracista contra algo que nunca vai deixar de existir?

Primeiro elemento do adoecimento: fixar-se no destino e esquecer-se dos caminhos.

Sei dos caminhos que chegam, sei dos que se afastam”, cantou uma vez Itamar Assumpção. Quando nos encontramos numa luta social (seja qual for), desejamos fortemente a transformação social. E, ao mesmo tempo, nos frustramos por saber que tal transformação não será alcançada na nossa geração. No entanto, eu fico me perguntando seriamente se esse não é um trabalho de “semeador de damascos” (eu acho que é de damascos), que não verá os frutos frutificarem e serem colhidos enquanto vivo, mas continua com a semeadura para que gerações vindouras possam colhê-los.

Há uma ansiedade no movimento (não falo movimento como algo (no) singular, mas tentando abarcar todos os rolês que querem transformar a sociedade) que preza pela transformação imediata e nada gradual do nosso contexto social. E o mais interessante nessa história é que cantamos a plenos pulmões que “o processo é lento”, mas não nos damos conta disso enquanto promotores de transformação social. E pior: essa ansiedade contamina as outras pessoas a ponto de estas se perceberem negativamente desniveladas em relação às outras.

Segundo elemento do adoecimento: achar que está sempre aquém de outras pessoas que estão no corre.

Eu me sinto assim. Me sinto sempre aquém do que posso oferecer, do que posso pegar. Quando surge uma demanda e não pego, sinto-me horrível, sinto que estou preguiçoso, que não estou dedicado o suficiente ao movimento. Ao que me lembro que não, eu não preciso pegar tudo, fazer tudo — a despeito do movimento, como ente concretamente abstrato, achar e deixar subentendido que todo mundo do rolê tem que fazer tudo. Mesmo porque fora dali eu tenho minha vida, meus estudos, minha pesquisa, minha cachaça, meus amores. Não consigo ser — e acho que jamais serei — um militante ao estilo Reggie Green, do seriado Cara Gente Branca, que não desliga jamais (e que, quando desliga… bom, não vou dar spoilers.) Eu preciso me desligar e fazer outras coisas, alheias ao meu universo militante, até para que eu possa chegar renovado, fresco, com a mente arejada.

Inevitavelmente haverá pessoas que têm mais disponibilidade e disposição para realizar este ou aquele tipo de ação. Eu sinto, realmente, uma espécie de cobrança insistente no que tange a querer que todos façamos tudo prá-já. É uma característica da contemporaneidade essa coisa da palavra “urgente” ser usada não de maneira emergencial, mas corriqueira.

Terceiro elemento do adoecimento: acreditar que as respostas têm que ser imediatistas e imediatas.

Muito tem me incomodado o uso do termo urgente. Não pelo caráter da ação, mas pela volatilidade com a qual tem sido empregado. Tudo, absolutamente tudo, é urgente. Esquece-se das prioridades; esquece-se dos fluxos e processos; esquece-se até de si mesmo quando nos é cobrada uma postura de “velocidade 5 do créu”. Ou, sendo mais contemporâneo (porque MC Créu já está ultrapassado), na velocidade do Whatsapp.

E essa velocidade quase que instantânea tem me deixado abobado. Tem me deixado bobo, sem ação. Sem saber o que fazer. Não que eu acredite que não haja urgência na realização das coisas, a questão é o quanto estamos atropelando fluxos e processos para que tudo aconteça — falo inclusive de um atropelo geracional, de não reconhecer as conquistas que nos foram garantidas pelos nossos antecessores e antepassados. Essa velocidade imprimida pelos movimentos — que não acompanha o ritmo (lento) das mudanças — me deixa cada vez mais frito e neurado.

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Tenho aprendido uma coisa fundamental com a capoeira. No jogo, há sempre pergunta e resposta, ataque e defesa, avanço e recuo. Avanço e recuo. A ginga na capoeira não é só para frente, é para frente e para trás — e para trás não no sentido de retroceder, mas de ganhar base para um eventual ataque; não existe ginga sem recuo assim como não existe Yin sem Yang. Talvez o maior problema que nos adoeça na militância seja querer sempre atuar na urgência, na premência, em vez de recuar e calcular os passos. Se fosse possível só de a gente parar de usar a palavra “urgente”; se fosse possível de vislumbramos o caminho em vez do ponto de chegada; se fosse possível crer que não precisamos estar no mesmo ponto da estrada; se fosse possível perceber que não temos o mesmo ritmo de caminhada; se fosse possível ver isso tudo, acredito que haveria muito mais solidariedade no movimento social e muito menos, muito menos adoecimentos.