Limites entre o empreendedor perseverante e o cabeça-dura

Stanford GSB tweetou que toda startup é uma série de hipóteses. Pode até parecer óbvio, mas é uma das melhores frases para resumir a volatilidade de uma startup. Correções de rumo conforme os aprendizados acontecem não apenas são rotineiras, como também são saudáveis: significam que você está entendendo melhor o problema do seu cliente, e como resolve-lo. Mas é justamente aí que mora uma dúvida que convive comigo todos os dias: até que ponto devo ir com a crença em uma ideia? E ideia entenda-se como uma funcionalidade nova, um novo modelo de precificação, um projeto comercial ou até um novo produto. Ou: qual é o limite entre a perseverança de um líder que vê coisas que os outros ainda não veem e a cabeça dura de um líder inflexível que não muda a rota mesmo quando o mercado já deixou claro que ela não é boa?

Ultimamente muito se escreve sobre os ditos profissionais visionários. Jornalistas adoram, com razão, contar histórias de pessoas que foram rejeitadas e provaram que estavam certas tendo que percorrer um longo caminho até chegar lá. Essas histórias inspiram as pessoas em suas rotinas a não se deixarem abalar e desistir de seus projetos por causa das dificuldades. Não é à toa que essas histórias estão muito presentes em todas as revistas de negócios. Grande parte dos profissionais se identifica com pelo menos parte das histórias que combinam “tive uma ideia” — “ela foi rejeitada” — “não desisti” — “ela é um sucesso, tomem essa”.

Do outro lado, e com muito menos mídia, existem as histórias das pessoas que perseveraram tanto quanto ou até mais que os bem-sucedidos das revistas, mas que não deram certo. Analistas de negócios não hesitam em classifica-los como inflexíveis, cabeça-dura, ou qualquer outro termo que reduza a capacidade deles de leitura de cenário.

Durante os dias, qualquer empreendedor navega entre os dois perfis constantemente. Ora tem uma sacada genial, ora uma ideia péssima. O grande problema é que ele(a) só vai saber qual é qual muito tempo depois. Até lá, o conflito “visionário x cabeça-dura” está instaurado.

Apesar de não ter a resposta definitiva para esse dilema, o que acho que é pouco dito é que a diferença entre visionário e cabeça-dura é estar certo. Sim, apostar em algo e provar que era isso mesmo. E que perseverança é apenas uma parte da história.Muitos perseverantes falham todos os dias de forma oculta, enquanto outros sucedem. Nem apenas por causa de sua perseverança nem apenas apesar dela. Reduzir sucesso ou insucesso a um comportamento único talvez seja uma das piores influências que analistas de negócios podem exercer.

Essa reflexão me lembra do filme “Para Roma com Amor” de Woody Allen. Quando o personagem principal, vivido pelo próprio diretor americano Woody Allen, vai analisar a crítica sobre sua mais recente obra no jornal local de Roma se depara com um título enorme: “Imbecile”. Como não entende italiano, pede que sua esposa traduza para ele. Ela prontamente o faz: “Muito a frente de seu tempo, querido. Muito a frente de seu tempo.”