Quando algo se faz através do tempo e se refaz com o decorrer das histórias, se transforma em memória, que renasce toda manhã de sol ou chuva ou trevas. Nem sempre alegre, mas forte, nem sempre luz, mas acesa. Relatos de quando almas foram expostas e entregues, tão mais arbitrariamente livres, sem preocupações exageradas ou anomalias capazes de condenar.

E da memória, que é a mais simples máquina do tempo, conceito indelével da seta do destino, emerge a saudade. Que quando bate gela, inspira, incomoda e navega por entre as veias, não pra se afogar, mas para estabelecer recanto temporário. Temporário até que a falta se desfaça ou se substitua por outra mais presente.

“ Ele ainda era demasiado jovem para saber que a memória do coração elimina as coisas más e amplia as coisas boas, e que graças a esse artifício conseguimos suportar o peso do passado.”
— Gabriel García Marquez, O amor nos tempos do cólera.

O tempo é a prova de falhas. Se permite pleno e cada detalhe se acumula nas linhas recorrentes daquilo que há de vir. A saudade se faz através dos detalhes definitivos. É a manifestação eterna das infinitudes mais simples do dia a dia; o ecoar de uma história remanescente. É o clichê mais exuberante: o vazio que preenche.

A vida é dilúvio de saudades. Juntando a alma das coisas em arcas de reencontro. Mesmo que tudo seja devir. Mesmo que o tempo seja uma ilusão e é provável que seja. Mesmo que o passado esteja em fluxo com o presente e o futuro acontecendo simultaneamente sem pausa ou parada e portanto somos tudo e todos separados por paredes dimensionais disfarçadas de nostalgia.

“A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”
— Carlos Drummond de Andrade

É tempo de retomar saudades antigas.

É tempo de viver e conhecer as saudades do futuro.

“We’ll always have Paris. We didn’t have, we, we lost it until you came to Casablanca. We got it back last night.”
— Casablanca, por Michael Curtiz.