Precisamos de menos políticos e mais hackers
Como aplicações em dados abertos podem ajudar você a ter noção de quanto custa o que é “de graça”.

A zoeira não tem limites, porém, todo o resto tem, inclusive o ar que você respira. Vivemos em um mundo de recursos finitos e devemos ter racionalidade na hora de consumi-los. Essa premissa não é lá o forte da nossa classe política. Gastar mais do que se arrecada, e gastar mal, parece estar no DNA dos nossos gestores.
Quando vamos a um estabelecimento privado e nos sentimos lesados, nossa reação (quase sempre) é reclamar. E nada melhor que usar a internet pra fazer isso. Não é de hoje que o brasileiro aprendeu a reclamar nas redes sociais. Quem não lembra do caso “não é uma Brastemp”?
Iniciativas como a do senhor Boreli são muito comuns hoje em dia. Mas, por que será que não vemos o mesmo nível de engajamento quando os governantes não cumprem com o seu dever?
Quem vai no restaurante e é mal atendido, reclama porque tem noção do prejuízo que está tomando. Entretanto, por quê essa pessoa mal atendida no restaurante fica calada quando lê no jornal mais uma notícia sobre o mal uso do dinheiro público?

Na minha opinião, o principal fator para essa apatia se deve ao fato de que o brasileiro não tem a menor noção de quanto sai do bolso dele. Por exemplo, nos EUA, o preço dos produtos na prateleira não contém os impostos. Esse simples mecanismo te dá um pouco de noção de quanto do preço do produto que você está pagando vai pro dono da loja e quanto vai para o governo.
O Impostômetro de Bolso é uma tentativa de criar essa cultura aqui no Brasil. Mais iniciativas como essa são necessárias e, nesse sentido, é aí que os desenvolvedores podem contribuir muito mais que os políticos.
Neste final de semana ocorreu o primeiro Hackathon da Paraíba. O evento rolou na Campus Festival 2015 e contou com a participação de 4 equipes. O desafio consistia em criar uma aplicação com dados abertos em até 48 horas. Um time de voluntários (formado por profissionais do mercado, professores universitários e servidores da CODATA) deu suporte aos participantes durante a maratona, seja com sugestões de tecnologias, seja no entendimentos dos dados.
A equipe Awaken, composta pelos membros Gustavo Sampaio, Afonso Maia e Igor Crispim, sagrou-se vencedora. Eles desenvolveram um guia turístico da cidade de João Pessoa focando na mobilidade e na disponibilidade do turísta e dos pontos turísticos. O app consegue mostrar quais ônibus o usuário precisa pegar para chegar a um determinado ponto turístico, saindo de qualquer lugar da cidade. As rotas foram mineradas a partir de dados fornecidos pela SEMOB-PB - em PDF para os itinerários e KML para as paradas dos ônibus.

Também é apresentada a ideia de feedback para envolver os usuários com a cidade. Outro destaque no projeto foi a inclusão de QRCodes para identificar os pontos turísticos e facilitar o acesso aos turistas. Cada qrcode corresponde a um ponto específico. O projeto foi desenvolvido com tecnologias web, como Javascript, HTML e CSS. O app foi empacotado usando Phonegap e, para o crawler dos itinerários, foi utilizado NodeJS. O app contém cerca de 2000 linhas de código, incluíndo o crawler e não incluíndo bibliotecas de terceiros.
Em segundo lugar, ficou a equipe 4Dots, formada pelos membros Bruno Paulino, Victor Augusto e Geferson. Eles tiveram a ideia de criar uma ferramenta para análise e visualização dos dados abertos do Governo do Estado, com uma interface simples e amigável para o usuário final. Eles usaram apenas HTML, CSS e Javascript para criar a aplicação, que tem em torno de 600 linhas de código. Ela já se encontra no ar e qualquer cidadão pode ter acesso pelo link https://hackathon-campus-2015-2-brunojppb.c9users.io/.

Essa solução permite ver em que áreas o governo está gastando mais e a relação entre receitas e despesas. Por exemplo, até o momento, o Governo da Paraíba já gastou 15.42% do orçamento público em educação. Em segundo lugar vem a previdência social (14.32%) e em terceiro a saúde (13.67%).
“Vamos trazer a diversão de volta aos dados governamentais!”
Foi baseado nesse lema que os caras da equipe NaN, formada pelo Joel Wallis Jucá, Murilo Frade e Nelson Henrique, conseguiram a terceira colocação. Ele tiveram a ideia de criar uma API para minimizar a dor no tratamento e conversão dos dados cedidos pelo governo. Na grande maioria das vezes, os dados estão disponíveis, mas entendê-los e extraí-los para um cenário de aplicação exige muito esforço. O objetivo do Cocada é justamente diminuir esse trabalho. O projeto tem cerca de 100 linhas de código e você pode colaborar através do link https://github.com/joelwallis/cocada.
No honroso quarto lugar ficou a equipe Questão de Brio, dos integrantes Adjamilton Junior, Rychard Guedes e Weslley Santos. Esse time, formado por alunos de Engenharia Elétrica do IFPB foi, pra mim, a maior surpresa do evento. Além do desfalque de um dos membros (ele não pode ir no primeiro dia), os caras tiveram que aprender Javascript em 2 dias.
Utilizando Java para minerar os dados, que estavam em planilhas xls (Excel), e convertê-los para JSON, eles tiveram a ideia de dar sentido e clareza aos dados gerados pelo DATASUS, permitindo à população acesso de forma fácil e rápida, para que as pessoas possam fiscalizar os investimentos na área de saúde em suas cidades. O Frontend foi desenvolvido em HTML e Javascript, usando o framework Bootstrap. O projeto tem cerca de 400 linhas de código e pode ser baixado através do link https://gitlab.com/ajr/queroversaude.
Iniciativas como estas demonstram a capacidade dos nossos desenvolvedores e o potencial republicano de suas ideias. Quando a gente tiver noção de quanto cada um paga para sustentar à democracia, mais vigilantes do património público seremos. Por isso é que não devemos esperar a boa vontade da classe política. Por isso é que a gente precisa hackear o sistema.