Mary And Sam

Ontem foi dia de assistir “Quase Famosos”. Ao menos uma vez por ano, essa é uma obrigação pessoal. E sempre é um sentimento agridoce. Amo o filme, ele me faz sorrir em vários momentos. Mas sempre termino de assisti-lo sentindo-me um pouco chateado. Para qualquer músico, há algumas cenas que são de partir o coração.

John Lennon disse em 1967: “Viver é fácil, interpretando mal tudo que se vê.” Ele foi, definitivamente, um dos primeiros a entender o que era a magia. O que era o sonho, que não morreu, mas que foi esquecido. O que é bem pior.

Música virou produto. É claro que sempre foi, arte sempre foi, não há debate nisso. A questão é a motivação. Qual é o objetivo de uma manifestação artística senão subjetivo? Buscar o diferente, o inusitado, a lembrança nostálgica, o sorriso, o gozo, a vontade, a explosão, etc. A capacidade de sonhar, no lado mais brega e juvenil da palavra.

Talvez o diferente, hoje, seja a tal magia. Ela definhou no rock. Ele não nos enfeitiça e nos joga em lugares imaginários. Ele perdeu completamente a inocência. Temos a plena noção do tempo de uma música, a duração da sua introdução, quantos compassos deverão ter o solo, aquelas palavras que não pode-se falar, o visual e postura de palco adequados, o estilo vigente, tanto em vestimenta, cabelo, estilo musical.

Músicas de amor são feitas meticulosamente e ficam perfeitas no Pro-Tools. Músicas pesadas são editadas para ficar no “grid”. Vozes passam no melodyne para dar aquela ajeitada. Não há erros. Não há espaço. Há apenas a perfeição. E na perfeição, cadê a emoção? O inesperado, a surpresa, a risada da surpresa. O rock ficou velho e conservador. Perdeu sua emoção. Sua tristeza e sua alegria. E tornou-se apenas aquilo que sempre combateu: a mesmice.

A contradição é que ele veio do blues; por excelência, “apenas um homem chorando pela mulher que perdeu”. É a história contada da maneira mais visceral e sem regras. O rock demorou a aprender — precisou de um branco com características negras para superar o preconceito débil — mas não tardou a esquecer.

O improviso, o exagero, o barulho, o silêncio. Forçar a situação ao máximo e vê-la relaxar depois. Nesse jogo de estica e puxa, descobrir novas nuances, novos olhares. Arriscar, jogar conceitos pré-concebidos pela janela, experimentar com o próprio organismo, ver o mundo sob o espectro incomum. “Psicodelizar” a vida.

Não há lugar para o lunático. Constantemente foram colocados à margem, em uma sinfonia de surdos. Seja por imposição externa ou por apatia interna, a criatividade perdeu seu lugar para a certeza, e as inovações já não mais emocionam. Hoje podemos nos fazer a mesma pergunta de Us & Them (Pink Floyd, Dark Side Of The Moon, com 42 anos (!!)), uma das músicas mais atemporais já escritas: somos capazes de sermos, apenas, humanos?

E por humanos, apenas quero dizer a chance do erro. Aquele que nos surpreende. Como um paralelo: depois da invenção e popularização do GPS, não nos perdemos mais. Isso é bom, eu sei. Mas perdemos com isso a chance de descobrirmos novos lugares, novas cidades. De nos enfiarmos naquele perrengue que gera histórias tão divertidas e nostálgicas. A novidade da descoberta é importantíssima, e ela ocorre quando o “normal” dá errado.

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