Meditando Ela

Bruno Aguiar
Aug 31, 2018 · 2 min read

Brisa fresca vindo do mar. Só ela na faixa curta de areia. Ela, só, com os pés na água. Os madrugadores dormem; os boêmios dormem. Ela não. Há mais de um ano ela abobalha os médicos dizendo que não dorme. Impossível, dizem, e ela se sente ultrajada pela pouca fé que eles têm nas palavras dela. Ainda assim, apesar do orgulho ferido, ela nunca teve coragem sequer de esboçar um convite para que eles vissem com os próprios olhos: o mar, seus pés se escondendo na areia molhada, a sua respiração acelerada, nenhum traço de aurora ou crepúsculo, suas pálpebras bem abertas, olhos fechados diante de seu rosto. Toda noite, doutor, ela diz, uma outra mulher me abre os olhos enquanto me acaricia o rosto à beira mar. E eu não quero dormir.

A rambla deserta de carros e pessoas recebe a brisa fresca vinda do mar. Só ela nas escadas da praia. Ela, só, apoiando os braços nos joelhos, sentada nos degraus. Quase todos dormem, menos duas mulheres. Ela não vai em médicos, mas diz para os poucos amigos que não dorme há um ano. Impossível, eles dizem, e ela releva a pouca fé de quem não sabe mais se apaixonar. Ela ri e nada diz. Só anseia: o mar, seus pés se escondendo nos pés dela, embaixo da areia molhada, a sua respiração curta e rápida, nenhum traço de aurora ou crepúsculo, seus olhos fechados, olhos abertos na frente dela. Toda noite, ela diz, eu abro os olhos de uma outra mulher enquanto nosso carinho não nos deixa dormir.


Bruno Aguiar
Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade