2h da manhã e ali me encontro, largado no sofá, olhando pro teto, pensando no mundo. Nas mágicas e inúmeras possibilidades da vida, nos sorrisos das garotas por aí, na complexidade das pessoas e no preço da cerveja do bar mais próximo.

Não estou só, minha companheira ansiedade segue comigo pela madruga. Uma enorme inquietação habita meu peito e ficar parado torna-se impossível e insuportável. Decido por sair pra caminhar. Me troco, tomo uma xícara de café, pego um cigarro na gaveta e parto pra rua.

Acontece que sinto-me livre na madrugada. As ruas desertas e a silenciosa noite me seduzem absurdamente. O vento contra meu rosto põe minha cabeça no lugar, me sossega a alma.

Acendo o cigarro e um bem estar invade meu corpo. Ando pela noite num profundo monólogo, fazendo papel de louco e deixando intrigadas as pouquíssimas pessoas que passam por mim.

Cruzando a esquina avisto um cachorro. O animal magro e sujo se aproxima e não resisto, ponho-me a acaricia-lo. Me despeço com um abraço apertado e sigo meu caminho. Tempo depois percebo que na verdade meu amigo das ruas insiste em seguir-me pela noite. Não demora muito e criamos enorme empatia um pelo outro. De 15 em 15 minutos pego-me abraçando meu companheiro da noite.

E foi assim pelo resto da caminhada, pelas 2h seguintes éramos eu e ele contra a fria madrugada. Gostaria muito de dizer que quando cheguei no portão de casa deixei-o entrar e acabei por adota-lo no fim, mas a verdade, infelizmente, é outra. O abracei uma última vez com lágrimas a cortar meu rosto e adentrei em casa.

Aquele cachorro me tornou um tanto mais humano. Sua lealdade e companheirismo fascinaram-me. Poucas pessoas me fizeram melhor companhia até hoje. É um dia do qual me lembro com enorme carinho. O dia em que vi mais humanidade num cachorro do que em muita gente.

Like what you read? Give Bruno Alves a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.