Nirvana — In Utero

Superar o que consideram sua obra-prima não é uma tarefa fácil. Com o disco “Nevermind”, o Nirvana chegou ao topo: amplamente elogiado pela crítica, vendeu absurdos, colocou a cena grunge no mainstream e trouxe todos os holofotes possíveis para a banda e Kurt Cobain. Agora era hora de ir além.

A fama adquirida rapidamente e a perseguição pela grande mídia são um dos temas principais deste disco e agravante na condição mental e emocional que o guitarrista se encontrava. Inspirado em seus ídolos John Lennon e Bob Dylan (pós “Álbum Branco” e em “Blood on Tracks”, respectivamente), Cobain criou uma obra extremamente pessoal e sentimental, desabafando as dores que o cercavam e a impotência de não saber lidar com essas emoções e novas situações.

O disco começa com “Serve The Servants” e já no primeiro acorde, temos certeza que o disco não se trata de um “Nevermind 2”. Aqui já começa o desabafo de Kurt sobre o fim de sua privacidade pela mídia e como os músicos são quase descartáveis para ela. E já que querem saber tanto de sua vida pessoal, ele acaba contando em alguns versos como o divórcio de seus pais trouxe sofrimento e como a ausência de um pai presente, que desse forças e o aceitasse, era incômodo.

Em “Rape Me”, Cobain critica mais uma vez a voracidade da mídia em querer saber tudo sobre ele e a banda. É um grito de impotência, como se dissesse: “Me use, me venda, faça o que quiser comigo, pois não tenho como reagir.”

O disco finaliza com “All Apologies”, trazendo um resumo do disco inteiro: abrir o peito para mostrar o que e como eu me sinto. Na canção, Kurt nos emociona com a quantidade de erros que acredita ter, na falha que acredita ser. Ele se desculpa por qualquer coisa que possa ter feito, a fim de evitar que os outros deixem de amá-lo. É um triste, dolorido e sofrido pedido de desculpas por existir que termina em seu tão amargo suicídio.

Uma obra que dói na alma ao ser escutada, mas que traz uma beleza justamente por isso: por mostrar as inquietações do ser humano e transformá-las em arte.

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