E se o Presidente fosse designer?

Nara de Deus, chefe do gabinete pessoal da Presidência da República brasileira recebe no Palácio da Alvorada uma ligação: “elegeram o designer, Nara”.

Essa não é a Nara. Mas poderia ser.

Não sou um expert em política. Tive durante minha graduação em design industrial um contato muito próximo com uma ramificação estritamente relacional da etimologia da palavra “política”, de natureza apartidária e estudantil. Mas confesso que, por coincidência ou não, o período que mais me interessei pelo tema foi o período mais conturbado dos últimos 30 anos da política brasileira.

E pensando sobre essa minha relação com a Política esses dias me perguntei: Já imaginou se o Presidente do Brasil fosse um designer? Será que ele mudaria o nome da Granja do Torto (piada infame)? Como seria? Quais são as boas práticas do design que poderiam ajudar a Política? E o contrário?

Pensei então em três práticas e tendências que acredito um bom Presidente designer não negligenciaria na sua gestão.

Human Centered Politics

O design centrado nas pessoas (ou Human Centered Design) é uma abordagem de projeto que coloca no centro do processo de design quem realmente obterá o valor final de um produto/serviço. Desnecessariamente inflada nos últimos 10 anos essa abordagem prevê como ponto de partida de um processo de criação a “desejabilidade” e o faz por meio de uma imersão no contexto de projeto através da coleta em campo de dados quantitativos e qualitativos que guiam diversas opções de soluções através de um processo iterativo (execução > análise > melhoria > execução…). Talvez a crise de representação que atinge a Política atual possa ser melhorada com abordagens desse tipo — não como promoção populista, mas como economia de recursos entendendo em profundidade quem realmente usufrui de serviços e informações públicos.

Inicie com a “desejabilidade” (via IDEO)

Mas aí nos perguntamos: como projetar para a “desejabilidade” em um país tão grande e que abriga tantas necessidades diversas?

Os Protótipos

Para responder essa pergunta o Presidente Designer diria: porque não testamos cada uma delas em ambientes controlados com seu público específico? Uma hipótese que tenho é que a burocracia gera tomadas de decisões em níveis sempre menos tolerantes ao erro, causando consequências desproporcionais às causas. Protótipos variam em níveis de contextualidade e fidelidade, permitindo a validação de hipóteses a um baixo investimento de energia, tempo e dinheiro.

Protótipo com papelão do espaço onde é oferecido um serviço (via MJV)

Um Presidente designer criaria as CLPs (Comissões Locais de Prototipação), que trabalhariam com pipelines de ideias usando testes de baixo custo para validar hipóteses de melhoria nos serviços.

Os Concepts

Talvez por ignorância minha, talvez por não usar os canais certos… Mas vejo que a Política fala muito do presente e do passado, pouco dos cenários ideais do futuro. No mundo do design — do industrial à moda — a produção gira em torno de tendências e as tendências geram os concepts — produtos/serviços de alto nível de inovação tecnológica, que por motivos de praticabilidade técnica ou aceitação do mercado não são ainda disponíveis para comercialização. São evidencias claras de um cenário que pode ou não concretizar-se em um médio/longo período, que ajudam a criar uma experiência ativa de imersão em um futuro que gostaríamos (será?) de alcançar.

Como seriam os caminhões do futuro? O concept de um caminhão com piloto automático para a Audi foi pensado por Artem Smirnov e Vladimir Panchenko. (via Yanko Design)

Me pergunto então qual seria a Curva de Gartner da Política? Quais seriam os cenários inspiradores que estabeleceriam os desafios, sonhos e metas nesse campo? Necessitamos realmente de uma atualização da democracia? Ou ela é só um fator que viabilizará ou não determinados conceitos?

Mas nada disso é aplicado no Brasil?

Não é bem assim. Na última década o Brasil viu surgir várias iniciativas incríveis usando esses conceitos do design (e vários outros) em campos da política e dos serviços públicos. O Instituto Tellus virou referência em design de serviços públicos. Movimentos como a RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade) e o Politize (Rede de Educação Politica) tem ajudado a entender e a criar os novos cenários da política brasileira. Várias cidades do país hospedaram as últimas versões da Gov.Jam: evento de 48h para projetar colaborativamente serviços públicos focados em desafios locais. E quem sabe não estamos caminhando realmente para uma presença forte do design nas esferas de tomada de decisão em relação à política, como faz o Design Council no Reino Unido, por exemplo. Quais outras boas práticas você conhece que aplicam abordagens de design no Brasil?


Obviamente designers não são formados para ter as competências necessárias na Administração Pública. Neste texto, em substituição à palavra “Presidente”, poderiam ser usadas as palavras “Político” ou “Gestor” sem comprometer o divertido exercício de imaginar instrumentos do campo do Design usados na prática política. E o contrário? Como seria? Como agiria um designer-político?