Melhor idade: será?

Ainda veremos beleza no entardecer da vida?

Na comprida fila de um guichê de passagens, vinha atrás de mim um senhor com seus 60 ou 70 anos. Estranhei que não tivesse se dirigido ao atendimento preferencial, mas logo entendi que ele queria mais conversar do que viajar. O papo começou despretensioso quando ele, simpático, me perguntou para onde eu ia e, duas frases depois, já me preparava para ouvir um longo relato dos seus 42 anos de caminhoneiro.

Para minha surpresa, a conversa logo desembocou num oceano de amargura. O senhor destilou opiniões políticas das mais avessas às minhas e ainda esbravejou uns discursos cheios de ódio contra grupos entre os quais até eu me encontro, mas ele seguia certo demais das suas convicções para exercitar um pouquinho de empatia, o mínimo que fosse.

Mantive um olhar falsamente atento enquanto desviava o pensamento, tentando decidir se rebatia ou não tamanha agressividade. Foi quando ele disse, categórico: "E essa porcaria de mundo não vai mudar."

Com alguma tristeza, entendi naquele momento que o mundo, o dele, dificilmente vai mudar mesmo. Não posso garantir que o meu vá melhorar muito (os noticiários até parecem apontar para o oposto às vezes), mas ainda tenho meus lampejos de esperança.

Resolvi me calar até a despedida por pensar que o melhor que eu poderia fazer por aquela pessoa seria simplesmente ouvir um pouco. Quando enfim retomei a palavra, tive de me esforçar, porque nem sempre sou bom em expressar certos afetos, mas consegui proferir a frase que vinha treinando mentalmente: "Senhor, vê se não deixa o cansaço te fazer esquecer que a gente é tudo gente."

Não sei se ele entendeu, mas foi a forma mais simples que encontrei para lembrá-lo daquele senso de humanidade que a gente às vezes esconde ou até desconhece. Desejei boa viagem e segui, com esse desafio gigante nas mãos: o de mudar o mundo, de não deixar que ele se torne mais uma "porcaria de mundo" na minha boca quando eu chegar à melhor idade.