Para os nossos novos dias

“A partir de certo ponto, não há retorno. Esse é o ponto que devemos alcançar."

Essa frase, comumente atribuída a Kafka, tem estado na minha cabeça. Não sei dizer de que obra ou contexto teria sido extraída, mas acho que, por si só, ela carrega um significado valioso para os nossos novos dias.

A vida é cheia de paradas obrigatórias, mas de vez em quando a gente conquista um "ponto de não-retorno". E pontos de não-retorno devem, antes de mais nada, ser celebrados, mesmo quando exigem de nós mais desapego e coragem do que imaginamos ter.

Porque a ponderação e a hesitação são parte importante do processo, mas não é preciso ir muito longe para perceber que prolongar uma dúvida é caminhar para o sofrimento.

Vale para tudo na vida. Para dar corpo a uma ideia. Para traçar um rumo profissional. Para eleger as relações que queremos preservar. Para discernir entre todas as coisas ao se perguntar: de que pedaço do infinito quero encher meu próximo minuto?

Parece-nos inconcebível a ideia de dar à luz um bebê e não lhe pôr nome, mas eu acho possível, ao menos como metáfora. É o que acontece quando a gente se acostuma ao processo a tal ponto que já não sabemos viver sem ele.

"Se foi assim por tanto tempo, por que mudar agora?" E a resposta é cruelmente simples: porque sim. Há uma certa organicidade no caos que não lhe permite estar sempre ordenado. Tudo muda, queira a gente ou não queira. E, já que é assim, não é melhor a gente querer?

Para conquistar pontos de não-retorno com leveza, é preciso ver beleza na dura consciência da efemeridade de tudo. Deixar morrer o velho, para então nascer o novo. Deixar crescer o novo, para então tornar-se velho. E aceitar que a natureza é mesmo um pouco clichê, mas sem perder a ousadia de achar que pode ser o gene mutante, capaz de mudar todo o rumo da espécie.

Quem sabe se, numa dessas, não somos nós mesmos uns pontinhos de não-retorno espalhados por um universo tão carente de transformação? Vai que...