O que faz você feliz?

Era um pub como qualquer outro que se instalou em São Paulo quando perceberam que uma mesa de sinuca, flâmulas de times ingleses e um balcão de madeira permitiam cobrar o triplo do preço da cerveja. Se em uma cantina italiana, fotos do Palmeiras, da Ferrari ou ao lado de celebridades fazem o ambiente, nesse tipo de bar o importante é a ligação com a Inglaterra. A máquina de cerveja ficava abaixo de um cachecol do Liverpool, a alguns metros de uma camisa do craque do Manchester United, que fazia companhia a um quadro do The Who.

Ao contrário do habitual para esse tipo de negócio, o dono era velho. E teimoso. Quando proibiram fumar em ambientes fechados no estado de São Paulo, ele ficou possesso. “O lugar é meu! Eu decido quem fuma!”, bradava nos primeiros dias, até descobrir que poderia usar o conceito de liberdade individual para disfarçar sua rabugentice. “O Governo não pode interferir na minha vida desse jeito”, passou a ser o slogan. Muitos clientes com a constituição no bolso tentaram protestar, o que serve apenas como gatilho para um discurso gigantesco e enfadonho sobre o direito que ele tem de permitir que as pessoas fumem no bar dele. Sempre vence pelo cansaço. Todos fumam em qualquer lugar.

- O que faz você feliz?

Que pergunta idiota. Gosto muito do meu amigo, mas ele assiste a palestras motivacionais demais. Chegam os filósofos, os executivos e os escritores com meia dúzia de clichês para impressionar a plateia, e eles conseguem. Pegam um raciocínio banal, que percorre o mundo há séculos, trabalham em cima do texto e vendem como se fosse a senha para Eldorado. Quem ouve não contesta, porque muitas vezes está apenas em busca de uma direção. Se você pedir direção na rua, e o gentil colega apontar para direita, vai contestar que é melhor vira à esquerda?

Alguém deve ter pedido para que ele definisse felicidade, e agora ele está fazendo uma pesquisa de campo.

- Não sei.

- Sexo?

- Não acho ruim.

- Mulher?

- Ajuda.

- Amor?

- Uma hora de felicidade para cada nove horas de dor.

- Eu vejo que você gosta de whisky. Bebida traz felicidade?

- Ela só ajuda a suportar a dor.

- Música?

- Traduz a dor.

- Baladas?

- Jogar ácido sulfúrico nos próprios olhos dói menos.

- Família? Filhos?

- Prefiro baladas.

- Futebol? Quando o seu time vence, deve ser legal.

- Eu sou palmeirense, então eu não consigo responder essa pergunta.

- Dinheiro?

- Só compra coisas, o que não passa de um whisky que não deixa ninguém bêbado.

- Você é pessimista.

- Ou as pessoas que fingem ser otimistas.

- Qual, afinal, é o propósito da vida para você?

- Distrair-se para não perceber que ela passa muito devagar

E chama o garçom.

- Mais um whisky, por favor.

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