Aos pés da Mãe

Os 300 anos de Nossa Senhora Aparecida

Fivela do cinto do Cowboy Gonzaga, um dos milhares de romeiros em Aparecida do Norte, São Paulo.

Texto e fotos por Bruno Bou Haya

Em 12 de outubro de 1717, na altura do porto Itaguaçu, nas águas paulistas do Rio Paraíba do Sul, três pescadores — Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves — encontraram na água, decapitada, uma imagem de barro. Em seguida acharam sua cabeça completando a escultura negra com cerca de 30 centímetros. Tratava-se da Nossa Senhora da Conceição. A falta de peixes no rio logo se transformou em fartura para os pescadores.

(1) A imagem original da santa; (2) arquitetura interna da Basílica Nova.

Essa história e outros relatos milagrosos da santa lhe lograram o título de Padroeira do Brasil. Dado pelo Papa Pio XI em 1930, foi um dos santos padres que estenderam a mão ao maior símbolo nacional: além de João Paulo II e Bento XVI, o papa Francisco também visitou Aparecida. O santuário Nacional, consagrado por João Paulo II, tem 72 mil m2 e é o maior santuário mariano do mundo, com capacidade para 45 mil pessoas assistirem a missa ao mesmo tempo.

A sala das velas
Na sala das velas é possível encontrar cera em formato de cabeça e órgão humano.

Os números desse local não são poucos. A prefeitura de Aparecida calcula 14 milhões de visitantes neste ano de tricentenário, e dois milhões em outubro. Esperou 400 mil pessoas de terça (10) a quinta-feira (12) e 200 mil somente no último dia de comemorações. Para dar conta de tanta gente, o santuário emprega 2.500 pessoas, equivalente a 7% da população local, e sua área é equivalente a 180 campos de futebol.

Dentro da basílica, no corredor da sala de promessas, pinturas retomam milagres atribuídos a Aparecida: o escravo cujas correntes de 7 metros se arrebentaram ao pedir proteção da Virgem; o cavalo que grudou as patas dianteiras nas pedras da escadaria quando o dono tentou entrar montado na Matriz; e uma menina cega que passou a enxergar.

Os tropeiros chegam ao longo do dia, 12, passando noites na estrada cavalgando.

Até hoje, milhares de fiéis passaram pela Rodovia Presidente Dutra indo ao encontro da Santa. Muitos deixam fotos como prova de gratidão: são cerca de 87 mil fotos no teto e centenas de objetos expostos nas vitrines. Dos mais comuns aos mais inusitados: pinturas e esculturas da santa ao capacete do Ayrton Senna. O peso da gratidão pode ser mensurado nas dez toneladas de cera retiradas da capela nos fins de semana mais movimentados. A impressão que fica ao se deparar com todas essas histórias é que a padroeira do Brasil é a única capaz de realizar milagres.

(1) As crianças na sala das promessas; (2) Uma romeira na Passarela da Fé que liga a Basílica Matriz à Nova.

Para ser considerado Santo perante os católicos, não basta ter só a fama de santidade. É preciso passar por três etapas: confirmação das virtudes heroicas, beatificação e canonização. As últimas duas exigem a comprovação de um milagre e envolvem mais de 70 médicos e vários especialistas, de Cardeais ao Papa. Milagre é uma cura inexplicável, surpresa para a ciência e para os mais próximos.

A 180 km da capital de São Paulo a prática forense investigativa não tem vez. O que anima o romeiro não esta no campo cartesiano. Por mais que a sociologia fale de fato social naquilo que ocorra com mais de uma pessoa, parece que a força motriz de cada fiel é profundamente pessoal e intransferível. São histórias de todo canto do país sem uma ligação direta entre elas. São centenas de milhares de pessoas reunidas para agradecer a Virgem Maria, dando a impressão que cada caso seja isolado.

(1) O cachorro com um grupo de candomblé na Matriz Basílica; (2) o rio Paraíba do Sul e (3) o dia 12 de outubro é marcado pelo comércio aquecido.
Os coroinhas puxam a procissão da celebração solene.

Por mais que a ciência não trabalhe nesse plano, a prática empírica de quem esteve por aqui pela primeira vez e, por sorte, nessa efeméride, saio cada vez mais curioso pela antropologia e psiquiatria. Pelo exercício da curiosidade e pelo fascínio do que vi naquele mar de gente — devota a uma imagem menor que 40 cm. Como disse o escritor Rodrigo Alvarez para a Folha, “Ao longo de 300 anos, por muito mais tempo que a bandeira nacional, o hino, o samba e o futebol, Aparecida tem sido um símbolo profundamente sólido e revelador da nossa identidade brasileira. Ter ficado negra, roubada e cobiçada pelos políticos acabou fazendo da santinha que renasceu das cinzas, mais ainda, a cara do Brasil”.

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