A próxima curva

As manhãs na casa da família Lins pareciam comuns a qualquer pessoa de fora. Enquanto o pai se desdobrava arrumando a filha para a escola e preparando o café da manhã, a esposa ganhava mais alguns minutos na cama. No dia seguinte, os papéis se invertiam e era Alice que ficava com as tarefas enquanto Nicholas ficava deitado. Desde muito antes do nascimento de Sara, que hoje completava 9 anos, os amigos perguntavam como eles conseguiam se dar tão bem, sem uma briga sequer. “O segredo é uma distribuição justa do sacrifício de acordar primeiro para tomar banho”. Hoje, o sacrifício era de Nicholas, que, com muita habilidade, trançava os cabelos da filha sem descuidar, nem por um segundo, dos pães na velha torradeira com o temporizador quebrado. É quase um ritual para ele. Depois das tranças e do pão, cortar fatias de queijo com precisão milimétrica. A diferença nessa manhã é a demora para encontrar a faca que costuma usar. Essa é a cena que Alice encontra ao chegar na cozinha. Ela diz que não viu a faca e, dando de ombros, ele continua os afazeres. Toda essa narrativa não conta nada a respeito da família Lins. É impossível enxergar que, desde os 6 anos de Sara, a vida deles tem reservado pouco espaço para a normalidade.

Começou com uma ligação da escola. Alguma coisa sobre contrariar e desafiar os professores constantemente. O casal, assustado, foi à escola conversar com a diretora e ouvir as coisas que a filha tem feito: braços cruzados na hora de fazer as tarefas, saindo da sala sem autorização, interrompendo as aulas e esse era só o começo de uma rebeldia precoce que envolvia pisar várias vezes na mão de um colega de sala. “Precoce até demais”, pensaram em conjunto. Já no carro com a filha, não faziam ideia de como abordar o assunto.

“Como foi a aula hoje, filha?”, Nicholas começou.

“Normal”.

“Normal? Você não tem nada pra contar pra mamãe, Sara?”.

“Não”, ela falava olhando pela janela, mas sem realmente enxergar o que se passava do lado de fora.

“A gente conversou com seus professores hoje, eles contaram algumas coisas pra gente”.

Ela se manteve em silêncio, mais interessada no próprio reflexo no vidro do que na conversa.

“Sara”, o pai perguntou, “você está ouvindo a sua mãe, filha?”

“Sim”.

“O que você acha que contaram pra gente?”.

“Não sei. O que eles contaram?”.

“Que você tem desrespeitado os professores, atrapalhado as aulas e que você machucou um coleguinha”, a mãe falou virando para olhar a filha no banco de trás.

“Ah…”, foi a única a resposta da menina.

“É verdade, filha? Você pode falar pra mamãe”.

“É”.

“O que tá acontecendo, Sara? Por que você machucou o seu colega?”.

Ela continuava com o olhar atravessando a janela. Os segundos de silêncio que antecederam a resposta da filha pareceram congelar o ambiente e aterrorizaram os pais. Sara finalmente olhou a mãe nos olhos, “eu queria ouvir quão alto ele conseguia gritar”.

Pelo resto daquela viagem, ninguém falou, porque as palavras da menina ainda pareciam reverberar em cada canto do carro e voltar ainda mais altas, quase ensurdecedoras e muito confusas. Naquela mesma noite, decidiram que precisavam de ajuda e procuraram por psicólogos especializados em atendimento infantil. Dois dias depois, Sara já estava na sua primeira consulta. Os pais esperavam do lado de fora do consultório enquanto a menina era atendida. As mãos tão apertadas uma na outra que não precisavam falar nada, apenas aguardar. Quando a porta se abriu, quarenta e cinco minutos depois, a voz de Sara foi a primeira coisa a ser ouvida ali, “papai!”, e saiu correndo para os braços de Nicholas. Alice aproveitou para levantar e falar com a psicóloga, que pediu paciência a ela, “ainda é a primeira consulta da sua filha, ela ainda não se sentiu muito confortável com o ambiente, comigo”, e reforçou que a próxima consulta era no mesmo horário, uma semana depois.

Os dias seguintes foram de normalidade, como se aquele único encontro com a psicóloga tivesse resolvido todos os problemas. Os pais estavam mais calmos, a filha, segundo a diretora da escola, parecia ter melhorado o comportamento. Quando o dia da segunda consulta chegou, discordaram se deveriam levá-la ou não.

“Alice, ela tá bem”.

“Eu sei, mas você ouviu o mesmo que eu ouvi no carro, seria bom que ela tivesse um acompanhamento”.

“E se ela ficar com raiva e se revoltar contra a gente?”.

“E por que ela ficaria com raiva, Nicholas?”

“Porque ela tem se comportado bem e pode achar que isso é uma punição”.

“Uma punição? Porque ela conversou alguns minutos com uma mulher bem simpática que distribui doces pros pacientes?”.

“Tá bom, ela vai, só disse que pode ser pior”.

“Pior do que bater num colega de sala pra ouvir ele gritar? Não tem como piorar”.

A espera pelo fim da consulta, apesar da discussão entre os dois, foi mais tranquila para o casal do que da primeira vez. E quando Sara saiu da sala sorrindo e mostrando que havia ganhado um pirulito, pouco enxergaram naquele rosto a mesma menina de olhar frio no carro. Os pais pediram para que ela esperasse sentada enquanto falavam com a psicóloga. “Não, papai”, a menina protestou, “eu não quero ficar aqui sozinha”. “É rapidinho, filha”, falou agachando à altura dela, “guarda um pedaço pra mim do seu pirulito!”. Na sala, sem que a menina pudesse ouvir, ouviram a psicóloga dizer que teve algum progresso, mas que algo ainda parecia assustar Sara, “evitem deixá-la com outras pessoas, mesmo que sejam familiares ou amigos de vocês, prestem atenção em como ela se comporta perto de qualquer um que faça parte da rotina da família, procurem por alguma reação estranha”. Definitivamente, aquela conversa estava longe do que esperavam ouvir. Queriam confirmação de que estava tudo bem, que, provavelmente, tinham ouvido errado no carro. Mas aquilo apenas os perturbou mais: há meses não recebiam amigos em casa, não tinham nenhum funcionário e o único familiar perto o suficiente era a mãe de Alice, que morava a duas horas de distância e não viam há alguns meses. Em raras ocasiões, Júlia, a filha mais nova da vizinha da frente cuidava de Sara para que eles pudessem sair para algum evento. Mas a jovem já havia cuidado dos filhos de vários vizinhos sem nenhuma reclamação ou problema. Todos a adoravam. Até a própria filha deles parecia adorá-la. Mesmo sem motivos para desconfiar de qualquer pessoa, decidiram colocar câmeras na casa e, na manhã seguinte, enquanto Alice saiu para trabalhar, Nicholas ficou em casa para receber a equipe de instalação.

Apenas alguns dias depois, o novo sistema de monitoramento foi usado pela primeira vez. Os dois precisaram ir para uma festa da empresa onde Alice trabalhava. Não queriam ir, tinham receio de que algo poderia acontecer, mas Nicholas tranquilizou a esposa, dizendo que poderiam olhar a filha à distância. Quando Júlia chegou para cuidar de Sara, a menina já estava dormindo e eles deixaram as duas sozinhas. Revezavam-se monitorando a casa pelo celular, mas nada parecia acontecer. A babá continuava na sala vendo televisão e a filha continuava dormindo no quarto. Duas horas e alguns drinques depois, já não olhavam mais o celular, completamente relaxados e aproveitaram a festa. Chegaram de madrugada, pagaram Júlia pelas horas de serviço e dormiram sem pensar uma vez sequer no assunto.

Mais um dia de consulta e os dois aguardavam conversando. Quando se deram conta, já havia passado quinze minutos além da hora marcada e Sara continuava na sala com a psicóloga. Quando a porta finalmente se abriu, nada da filha. “Senhor e senhora Lins, só mais um momentinho, tudo bem? Não tem nada de errado, só vamos conversar mais um pouco”, e fechou a porta novamente. Os dois acharam estranho, não sabiam o que pensar. Pouco tempo depois, a psicóloga, visivelmente nervosa, saiu da sala com Sara e começou a puxar assunto. Apenas trivialidades sem tirar o olho da porta que dá acesso ao corredor do prédio. “Doutora, tá tudo bem com…” foi tudo que Nicholas conseguiu falar até notar a chegada de dois policiais. “Nicholas e Alice Lins?”, um dos policiais perguntou e eles assentiram com a cabeça. “Sra. Alice, a senhora pode vir aqui no corredor comigo?”. Alice o seguiu para fora da sala enquanto o outro policial continuou ali. O pai não conseguia pensar, nem falar. Viu a menina indo para o consultório a pedido de alguém, mas parecia ainda não entender o que estava acontecendo. Quando estavam apenas os três na sala de espera, sem a criança, foi a psicóloga que começou a falar.

“Sr. Lins? Sr. Lins, o senhor está me ouvindo?”.

“Sr. Lins?”, o policial tentou tirá-lo do transe tocando em seu ombro.

“Oi?”, ele virou para encará-los ainda com o olhar perdido.

“Sr. Lins, a sua filha me contou algo preocupante hoje. É por isso que a polícia está aqui”.

“O que? O que tá acontecendo? Por que a minha esposa tá lá fora?”.

O policial interveio, “Sr. Lins, a psicóloga da sua filha nos chamou, porque ela está preocupada com a menina”.

“Preocupada com o que?”.

“A Sara me contou na consulta de hoje alguns casos de agressão que ela tem sofrido. Ela me contou que foi agredida recentemente”.

“Recentemente? Mas…”, ele encara algum ponto inexistente no chão, “nós colocamos câmeras na casa. Nós saímos há dois dias, era uma festa da empresa em que a Alice trabalha, mas nós monitoramos a babá quase o tempo todo pelo celular”.

“Sr. Lins”, a psicóloga tentou entrar na linha de visão dele, “não foi a babá. A Sara disse que foi ontem, que foi a sua esposa. Eu sei que é uma situação difícil, mas eu preciso que você se concentre”.

“Você não sabe o que você tá falando, a Alice nunca faria isso”.

“A sua filha me mostrou as marcas”.

“Que marcas?”.

“A sua esposa fuma, Sr. Lins?”.

“Sim. Às vezes, mas nunca em casa ou na frente da Sara”.

“Sua filha tem queimaduras na barriga, muito parecidas com marcas de cigarro”.

“Eu nunca vi nada assim nela… Isso é impossível”.

“Quem veste a sua filha, Sr. Lins?”, o policial perguntou.

“Ela mesma, ela diz que já é grande o suficiente”.

“Talvez por isso você não tenha notado. É normal não desconfiar dessas coisas”.

“Não, você não tá entendendo. Ontem, eu deixei e busquei a Sara no colégio. E eu passei o dia em casa com ela. A Alice chegou de noite, quando a Sara já estava dormindo e eu não percebi ela levantar de madrugada”.

Nicholas pegou o celular e pediu para os dois ficarem calados. Acessou o arquivo do sistema de monitoramento e começou a assistir às imagens da câmera do quarto da filha desde o momento em que a esposa chegou em casa. Colocou para reproduzir mais rápido. O policial e a psicóloga também olhavam a tela com atenção. Quando o mostrador na gravação marcava algumas minutos após três horas da manhã, a menina se levantou e saiu do quarto. As mãos de Nicholas começaram a tremer, quase derrubando o celular. A psicóloga, segurando o aparelho e as mãos dele, foi o que permitiu que voltassem a olhar a tela. A menina volta para o quarto e levanta a mão esquerda, emitindo uma luz que faz com que a câmera leve uns segundos para regular o brilho. Quando a imagem fica nítida, eles reparam o cigarro na outra mão. Ela o acende na fonte daquele ponto luminoso, que parece um isqueiro, levanta a própria camisa e Nicholas tira o celular da mão da psicóloga e guarda outra vez no bolso. Ele cai de joelhos entre o policial e a mulher, os dois ainda tentando processar o que tinham visto. O policial vai até o corredor pedir para que seu parceiro e Alice retornem à sala de espera. Não conseguem explicar a eles as imagens às quais assistiram. Então a mãe da menina pega o próprio celular e assiste até o fim. Naquela sala de espera, cinco adultos em silêncio olhavam apreensivos para a porta do consultório onde uma criança aguardava comendo seu pirulito.

Depois daquele dia, não demorou muito até alguns animais começarem a sumir da casa de vizinhos. No começo, alguns pássaros. Depois, hamsters. Então foi a vez de gatos e cachorros. A terapia continuava, mas agora com outra pessoa. Por recomendação da antiga psicóloga, eles procuraram alguém especializado em casos como o da filha. O diagnóstico veio logo, “transtorno de conduta”, disse o novo psicólogo. Em casa, os pais pesquisaram. Aparentemente, transtorno de conduta é como chamam as crianças que parecem psicopatas, porque não podem chamá-las assim em razão da idade. À essa altura, ler esse tipo de coisa já não os preocupava. Ler era bem menos assustador que viver.

Hoje, o dia em que Sara completa 9 anos, os pais vão dar uma festa. Como a filha não possui amigos, já que os vizinhos não deixam mais os filhos chegarem perto dela e a escola recomendou recentemente que procurassem um lugar que pudesse atender às necessidades da menina, “ela não tem como receber a ajuda que precisa aqui”, disse a diretora, então a festa seria na casa da mãe de Sara. Apenas a família presente: o casal, a filha e a avó, que não sabia sobre o transtorno da menina. Para a avó, os pais eram protetores demais, nunca deixando a menina sozinha. Era isso que ela falava nos últimos anos. Falava sem saber que, há um mês, Sara tentou afogar um menino de 5 anos no banheiro do colégio. A festa aconteceu tranquilamente. Comeram, riram — desconfortavelmente a maior parte do tempo — e entregaram os presentes. Os pais deram roupas, porque não sabiam o que dar. Ela não gostava de brinquedos e tudo a entediava. A avó deu um cheque para que ela comprasse o que achasse melhor. Quando terminaram de lavar a louça e arrumar a casa, a mãe de Alice sugeriu que dormissem lá e fossem embora pela manhã, “já passou da meia-noite, vocês não vão dirigir a essa hora, essa estrada é perigosa demais, muito sinuosa”. Ela tinha razão e eles apenas aceitaram o conselho. Os três — Nicholas, Alice e Sara — dormiram juntos no antigo quarto de Alice.

Os pais da menina demoraram a entender. Olharam um para o outro, viram a hora, três da manhã, e se deram conta: foram acordados por gritos. Procuraram por Sara no colchão colocado ao lado da cama e não a viram. Saíram do quarto às pressas, os gritos, que não haviam parado, eram da mãe de Alice. À porta do quarto dela, estava Sara. De costas para eles, a cabeça levemente inclinada para o lado. Levaram alguns momentos para notar que ela carregava uma faca. A mesma faca que Nicholas procurou naquela manhã. Ele correu e a agarrou, tirando a faca de sua mão e jogando no chão. Carregou-a para longe enquanto ela gritava pedindo ajuda, como se estivesse sendo agredida pelo pai. Alice foi até a entrada do quarto, sua mãe estava bem, apenas abalada. Mas, mesmo assim, Alice não conseguiu se aproximar. Falou qualquer coisa confusa e chamou Nicholas, que ainda segurava Sara. Foram para o carro, o marido e a filha no banco de trás, Alice atrás do volante. Ela deu a partida e saíram dali.

“A culpa é nossa, Nicholas”.

“Como assim?”.

“É nossa, a gente fez alguma coisa de errado”.

“Não, ninguém tem culpa. É uma fase, o psicólogo disse que não dá pra ter certeza, é por isso que chamam de ‘transtorno de conduta’ nessa idade”.

“Olha pra ela, Nicholas!”, a menina sorria de forma desafiadora olhando pelo retrovisor enquanto as lágrimas escorriam no rosto da mãe.

“Você tá indo muito rápido, Alice. Reduz um pouco a velocidade”.

“Ela sabe o que ela tá fazendo!”.

“Talvez, mas ela ainda é uma criança”.

“Uma criança que tentou matar alguém na escola, que mente compulsivamente, que ameaçou a avó com uma faca, que matou os cachorros dos vizinhos”.

“Mas é a nossa filha! Reduz a velocidade, Alice!”.

“Eu sei que é a nossa filha! Por isso mesmo, ela é responsabilidade nossa!”.

“Eu sei! Mas o que você quer que eu faça?”.

“Abraça”.

“O que?”.

“Abraça a Sara”.

À frente, uma curva se aproximava. Ela não pareceu reduzir a velocidade.