Uma história sem importância

Essa não é uma história feliz. Mas não me entenda errado, nela não existe morte e muito menos tristeza. É uma história que apenas é. Só e sem mais. Tão entediante quanto a vida do personagem a ser narrada. Tão desesperadamente banal que eu mentiria de forma criminosa se dissesse ao leitor que a guardaria na memória.
O nome do personagem é comum demais para fazer alguma diferença. Foi escolhido em homenagem ao seu avô materno, que à data de seu nascimento estava internado em estado grave. O médico não demorou a sentenciar: “vive mais um dia se os deuses estiverem de bom humor”. Pois o menino nasceu, passaram-se algumas décadas e o velho continua vivo. Antes que o leitor se apresse em gritar “milagre!”, bem… Não o faça. Uma mera confusão de exames erroneamente sentenciou aquele senhor à morte. Hoje tem 101 anos e divide seu nome com o neto. E é assim que vamos chamá-lo a partir de agora: Neto. Que, longe de ser nome, é só mais uma lembrança daquele dia em que nada demais aconteceu.
Com a motivação certa, o trabalho de Neto até pode ser considerado empolgante. Motivação que ele já conheceu muito bem e que, em algum momento dessa vida, todos nós entramos — ou vamos entrar — em contato: é mais comumente chamada de desemprego. A diferença entre receber ou não um cheque ao final do mês é o que existe de mais fascinante naquela rotina diária. Sinto-me no dever de informar ao leitor que o cheque não é força de expressão, não é recurso linguístico, mas a real transação em que o seu pagamento é efetuado. Em uma era tão avançada como a nossa, ele ainda recebe seu salário em um pedaço de papel preenchido à mão em uma das caligrafias menos memoráveis de que já se teve notícia.
Quando chega em casa, um apartamento razoável cujo aluguel não é nem barato demais para se gabar do negócio que fizera e nem caro o suficiente para reclamar da especulação imobiliária, perde seu tempo na internet. Espero que o leitor não me entenda mal, como se estivesse menosprezando horas e horas de um delicioso passeio em redes sociais celebrando o mais puro ato de improdutividade humana. Não, longe de mim. É que ele tem o dom de encontrar todas as imagens e assuntos que já saíram de pauta. Fato que, ao olhar do leitor desatento, poderia parecer algo que o distinguisse entre tantos nesse mundo. Mas todos nós temos um familiar exatamente assim.
Gosta de ouvir música, mas não tanto para classificar como um hobby e com pouco conhecimento para ser considerado um especialista. Essa poderia ser considerada uma de suas melhores qualidades, mas apenas se comparada a todas as outras insignificantes que possuía. Harmoniza a ótima escolha de bandas com o péssimo dedo para dar o play nas músicas mais enjoadas e que entraram em um merecido hiato nas playlists alheias.
É claro que, a essa altura da história, o leitor já deve ter começado a se perguntar se Neto possui amigos. Como seria triste — e interessante — dizer que não tem amigo algum. Mas tem. Muitos? Não. Poucos? Também não. A quantidade normal. Fazem programas tão mundanos que não serão relatados para que a leitura não fique ainda mais anticlimática. Mas, caso realmente queira imaginar seus descartáveis programas, tente lembrar o que você fez exatamente nesse mesmo dia desse mesmo mês, mas há um ano. Pois aí está: fazem coisas tão esquecíveis quanto essa que você não consegue lembrar de ter feito.
Até em um dos tópicos que mais rendem conversas entre sua geração, ele era banal. Seus amigos ou têm sérios problemas para dormir e fazem uso descompassado dos mais variados remédios com venda controlada; ou dormem com facilidade e se vangloriam de como conseguem se desconectar com facilidade e por muitas horas. Ele? Dorme. De forma tão trivial que seria exagero da minha parte dizer que dorme muito e uma estranha avareza dizer que pouco.
Aos finais de semana, costuma visitar a família, que mora a cerca de quinze minutos da sua casa, distância essa que não lhe dá o direito de reclamar da demora e certamente não é pequena o bastante para ser comemorada. Talvez se morasse em uma metrópole com engarrafamentos enfadonhos e que viram bons assuntos de mesa de bar. Mas não, mora em uma cidade de tamanho mediano. Seus pais ainda estão casados depois de quarenta e um anos juntos. E que o leitor nem comece a pesquisar quais as próximas bodas a serem comemoradas nessa belíssima história de amor, pois que fique registrado: não se amam. Mas também não se odeiam. Apenas consideram mais fácil continuar juntos. Neto mantém uma relação tão desimportante — para efeitos dessa história — com os pais que nem o mais freudiano dos psicólogos conseguiria achar um evento relevante o suficiente para uma análise.
Relacionamentos? Teve alguns. Nunca passou muito tempo sozinho para reclamar aos amigos e nem passou tempo demais se relacionando para que chorasse em ombros simpáticos. Nem seus términos, que em outras vidas são eventos repletos de dramatização e reviravoltas, nem eles foram marcantes. Mal se lembra de como se sucederam. E muito menos eu, encarregado desse relato, lembro. Ele apenas se recorda que um dia estava namorando e no outro não estava mais.
Um dia, quase que de surpresa, saiu de casa decidido a adotar um cachorro. É certo que não preciso dizer a importância que um cachorro dá a qualquer vida e qualquer história. Poderia ser essa a grande reviravolta depois de parágrafos tão desnecessários de uma vida não incrivelmente chata? Sim. Mas não foi. Não adotou animal algum e nem sequer foi à feira de adoção, acabando aqui todas as esperanças de alguma empolgação nessa existência contada.
Se, apesar de tudo o que já foi relatado, o nobre leitor ainda assim me pedisse que procurasse na vida dele uma habilidade notável o suficiente para ser narrada, eu não pensaria duas vezes em escolhê-la. Com certeza seria a sua capacidade de ser medíocre em tudo o que faz. Coisa que, a bem da verdade, não é nada incomum, não é mesmo?
Seus hábitos alimentares? Sem importância. Seu parque preferido? Sem destaque. Suas roupas? Corriqueiras. Suas opiniões? Descartáveis. Os livros que lê? Desanimadores. Sua vontade? Desestimulante. Seu sorriso? Inexpressivo. Sua tristeza? Idem.
Agiria de muita má-fé o leitor que, chegando aqui, ao final dessa história, amaldiçoasse esse pobre narrador. Muito fiz para alertar-lhe no início que as linhas que se seguissem ao título teriam o mesmo efeito se estivessem em branco. Então, que não me culpe. Mas que também não culpe o reles personagem por não ser único, por ser tão somente mais um.
Como prometido, pode-se dizer com a mais absoluta certeza que ninguém morreu nessas linhas. Mas também não se pode dizer, ainda que com o mais simplório bom senso, que nelas alguém viveu.
