Partick Thistle: Bairro + Flor = Zequinha da Escócia

Quais são os times de futebol de Porto Alegre? A quase óbvia pergunta encontra respostas diferentes quando o entrevistado conhece um pouco da história do futebol gaúcho e pode dissertar, quem sabe, sobre a história do clássico Zé-Cruz, entre São José e Cruzeiro, os outros dois times da cidade — que não têm o tamanho de Grêmio e Internacional, mas disputam corriqueiramente a primeira divisão estadual, apesar de não terem planos em âmbito nacional.

“Quais são os times de futebol de Glasgow?” é uma pergunta com inúmeras semelhanças àquela feita na abertura do post. O Old Firm entre Rangers e Celtic é conhecido mundialmente por seu cunho religioso e político. Verdes vs. Azuis já foi sinônimo de batalhas campais na Glasgow dos anos 1970 e 80.

Entretanto, assim como Porto Alegre, Glasgow também tem outros times. O Queen’s Park, atualmente na quarta divisão, é o clube que joga em Hampden Park, estádio que também abriga a seleção de futebol do país, casa da Federação Nacional. Com sua importância história, inclusive de títulos nos primórdios da Liga Escocesa, é sempre lembrado por conhecedores do esporte.

Mas… e o Partick Thistle? Como o menor dos quatro clubes da cidade, que conta com o menor estádio, a menos vitoriosa história faz pra, em 2016, seguir na primeira divisão e lidar com o sucesso de seus rivais locais? Uma simples ida ao Firhill Park responde algumas dessas perguntas.

Foi isso que fiz na fria noite de 23 de fevereiro — data do primeiro de quatro jogos atrasados que o clube terá que fazer em casa. Todos confrontos foram adiados pelo mal tempo, que detonou uma das margens do campo de jogo. Não existem eufemismos suficientes pra qualificar o “gramado” do Firhill em Fevereiro de 2016. A imagem é clara e demonstra a ação das águas em um estádio construído aos pés de uma colina.

Atrás da arquibancada principal e das duas metas de gol, existem contenções de seguranças feitas para evitar que as águas de um dos afluentes do Rio Clyde saiam do curso. Contudo, os efeitos do El Niño em 2016 foram acima do normal, causando muita chuva na região norte da ilha da Bretanha, principalmente no sul das Highlands, exatamente onde é situada a cidade de Glasgow.

Com isso, o campo de jogo do Partick Thistle funcionou como uma pequena represa pra água abundante que caíra na região, estragando o campo de jogo e obrigando clube e Federação a adiar quatro dos seis jogos como mandante dos Jags desde Dezembro — fator que fez aumentar no clube os rumores da troca da grama natural por um campo artificial, já utilizado por Kilmarnock e Inverness na Scottish Premier League.

Os jogos adiados colocaram o Partick na zona de risco de rebaixamento. Nada que realmente preocupe os torcedores. Ao longo de 2015, fui aluno de dois professores que torcem para os Jags. Ambos foram enfáticos ao afirmar o que leva alguém a torcer pelo clube do norte da cidade: “Ser Partick é torcer para um time que pode ganhar ou empatar, mas muitas das vezes vai é perder mesmo. E é essa a graça. Ser Celtic ou Rangers é ir ao jogo perguntando ‘De quanto vamos ganhar hoje?’ E isso não é emocionante”. Se eles dizem, não serei o estrangeiro chato a discordar.

Definitivamente, é de emoções, poucos altos e muitos baixos que o clube vive. Em 2012/13, já sob o comando do atual treinador, Alan Archibald, o Partick voltou à elite escocesa como campeão da segunda divisão depois de nove anos de ausência. Na história, um título de Terceira Divisão, seis da Segunda Divisão, uma Copa da Liga em 1971/72 e uma Copa da Escócia na temporada 1920/21 são as glórias do clube.

Localizado na área norte de Glasgow, o clube leva o nome do bairro onde fora criado em 1876, junto com a planta característica da Escócia. Pouco mais de 30 anos depois de sua fundação, o clube comprou da Caledonian Railway a área para construir o Firhill Park por cerca de £5.500 (atualmente R$32.000).

A atual arquibancada principal, datada de 1927, é a prova de que o Thistle é um clube diferente dos outros. É na Main Stand, onde cabem quase 3000 torcedores, que fica a torcida visitante nos jogos dos Jags. Isso porque do outro lado do campo situa-se a Jackie Husband Stand, construída em 1994 e com quase o triplo de capacidade da antiga arquibancada principal.

Atrás de um dos gols ainda é possível ver um barranco coberto de grama — hoje em dia, palco para uma câmera de televisão e placas de publicidade, mas que já fora o lugar predileto da torcida para ver os jogos do Partick Thistle. É por trás desse mini-barranco que se chega ao local de imprensa do clube, que mistura uma escada onde apenas uma pessoa sobe ou desce por vez com a maior velocidade de internet Wi-Fi para trabalho que encontrei em qualquer estádio de futebol.

O costume de jogos duros foi levado à risca diante do St. Johnstone. Com o rival melhor colocado na tabela, Alan Archibald recuou seu time e não chutou uma bola na direção do gol em todo o primeiro tempo. A atenção dos 45min iniciais certamente esteve dividida entre as circuladas de Kingsley, o estranho sol que passou a ser mascote do clube no início da temporada, e as tentativas de ganho de posição campal de Mathias Pogba, centroavante do clube e irmão do craque da Juventus.

Paul veste a #10 zebrada e tradicional do gigante de Turim. E se Mathias, #99 do Partick, certamente não herdou o mesmo talento do irmão mais novo, ele soube utilizar-se de seu 1,94m pra incomodar e desgastar a defesa dos Saints nos 65min que esteve em campo.

Desgastado por atuar sozinho no ataque, Pogba deu lugar a Kris Doolan aos 20' do Segundo Tempo. 30 segundos após a substituição, um balão do meio-campo do capitão Abdul Osman virou um lançamento pro recém saído do banco. Doolan deu seu primeiro toque na bola com o pé esquerdo, batendo firme e cruzado pra vencer o goleiro Alan Mannus: 1–0.

No confronto entre o 10º e o 5º colocado, a sofrida torcida em vermelho e amarelo compareceu ao estádio pra, quem sabe, ver seu time livrar um ponto da confusão dos playoffs de descenso. Mas eis que, faltando menos de meia hora de jogo, o Partick vencia um combalido St. Johnstone, sem seu artilheiro (Steven MacLean fora poupado) e com duas trocas já motivadas por lesão.

O golpe final veio com a arrancada de mais de 60m de David Amoo. Velocista clássico, Amoo arrancou como opção de passe na entrada da sua área defensiva, recebeu de Aidan Nesbitt o rebote do escanteio e fez o que mais sabe: correu. Enquanto corria, a torcida gritava “AMUUU, AMUUU, AMUUU”. Em meio a esse momento Globo Rural, o atacante cruzou o meio campo, avançou sobre o defensor e cortou pra perna esquerda, finalizando cruzado da entrada da área: Partick 2–0.

As 2320 pessoas presentes no Firhill Park passaram frio durante os 90min — algo em torno de -2º e -4º celsius. Para aqueles que vestiam azul na arquibancada principal, a volta a Perth seria sem a vitória na bagagem, esperando curar os pés gelados com um copo de chá com leite, no melhor estilo britânico.

Mas os que subiram o morro atrás do gol vestindo camisas listradas em amarelo e vermelho, assistiram da Jackie Husband Stand seus jogadores vencerem o adversário, o campo combalido e as temperaturas negativas. Dessa vez, os torcedores do Zequinha da Escócia deixaram a zona norte de Glasgow celebrando o que os gigantes da cidade acham normal: vencer.

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