A Primeira Vez que eu Disse eu te Amo

Bruno Cavalcanti
Sep 8, 2018 · 3 min read

Alguém se lembra da primeira vez que disse “eu te amo”? Eu me lembro. E você, lembra? Lembra se o seu coração acelerou? Se o seu estômago embrulhou e seu corpo ficou quente de ansiedade? Você lembra se tinha noção do que estas três palavrinhas, quando unidas numa mesma frase, significam?

A primeira vez que eu disse “eu te amo” foi muito fácil de dizer. Saiu como um bom dia, sem mais consternações. Foi simples, direto, rápido. E foi uma mentira. O primeiro “eu te amo” que eu disse não era um “eu te amo”… era, no máximo, um “eu gosto de você”, ou um “eu te quero bem”, ou um “felicidades na vida”. Claro, você vai me dizer, o “eu te amo” engloba todas essas outras. E eu vou concordar, mas faltava algo.

O amor, não se engane, não tem nada a ver com a paixão. Pelo contrário, um, geralmente, foge do outro. Amar alguém não significa necessariamente estar apaixonado — e vice e versa. É possível estar apaixonado por alguém e não aguentar passar mais de duas horas com a pessoa, porque os defeitos falam mais alto, e aí não tem jeito: é a forma que come, que dorme, que bebe, que fala… tudo te tira do sério a ponto de você querer morrer. Estar apaixonado é aguentar tudo, mas querer morrer — e, às vezes, matar.

Amar não. Amar é aguentar, aceitar, querer morrer (ou matar), mas, ao mesmo tempo, deixar pra lá e entender que há algo a mais por debaixo daquela mania terrível de palitar os dentes a mesa, ou daquele péssimo hábito de deixar as calcinhas largadas no chuveiro, ou mesmo daquela terrível insistência em pedir catupiry na pizza — mesmo sabendo que você de-tes-ta!

Amar é estar junto, é ser parceiro, é querer o bem não importa com quem. É querer que a pessoa vá ao trabalho tendo tomado café da manhã, e se preocupar, de vez em quando, se ela almoçou e se comeu de acordo com o que o médico receitou.

É se perguntar se ela está seguindo a dieta, é colocar cenoura no arroz, mesmo odiando, é ir a um show de sertanejo universitário, mesmo sabendo que lá só vai encontrar a morte lenta e em calça justa. Amar é não seguir nenhuma regra, mas respeitar todas e, de vez em quando, até estabelecer algumas.

É conversar sobre as contas do fim do mês, sobre o colégio do filho, sobre os problemas com os pais e as aporrinhações do chefe; é estar presente no casamento da prima de segundo grau e não ficar para a festa porque ela está com dor de cabeça, é chegar em casa e fazer um chá e lhe propor massagem nos pés, é acordar antes dela só para prepara o café da manhã — e se ela jamais fizer isso, não se importar –, é ouvir suas reclamações e ajudar a carregar as sacolas no shopping; é fazer de bom grado e com um sorriso (ainda que interno) todas essas coisas que matam a paixão, mas solidificam o amor.

Portanto, sim, a primeira vez que eu disse “eu te amo”, eu menti. E a segunda também. E muito provavelmente a terceira. Na verdade, só fui descobrir o que é esse tal de amor recentemente, e disse mais uma vez “eu te amo”. Essa não foi a primeira vez que eu disse “eu te amo”, mas com certeza foi a primeira vez que eu disse de verdade.

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