Paixão

Quantas vezes você já se apaixonou? E por quantas pessoas? Não que isso seja da conta de alguém além de você mesmo — e, claro, daqueles que foram objetos da paixão –, mas é uma pergunta justa. Já pensou a quantas pessoas você dedicou tempo, atenção, declarações e suores nervosos? Quantas pessoas já tiveram a honra de passar pelo menos 23 horas por dia nos seus pensamentos e nos seus sonhos? Quantas pessoas receberam a dádiva sagrada de serem vistas pelos seus olhos apaixonados, que sublimam qualquer defeito e exaltam qualquer qualidade, ainda que mínima?

É uma delícia estar apaixonado, não é? E mais ainda, é uma delícia quando alguém está apaixonado por você. Mas a perfeição mesmo é quando você se apaixona por você mesmo. Aí não tem volta. Você se olha com uma visão mais delicada e gentil, você perdoa seus deslizes e — que delícia! — você se permite a alguns mimos como se fosse a pessoa mais merecedora da face da Terra. Não é o máximo?

Então refaço a pergunta lá de cima: quantas vocês você já se apaixonou? E destas, quantas vezes foi por você mesmo? Essa é uma resposta um pouco mais delicada, porque, no fundo, nós sabemos que merecemos mais do que nos damos, e aí é que a porca torce o rabo. Por que nos doamos tão pouco a nós mesmos? Por que não podemos olhar para nossos erros com os mesmos olhos generosos que olhamos para os daquela pessoa. Sabe, aquela? Pois é…

Se apaixonar por você mesmo é um trabalho diário e relativamente mais complicado. Demanda uma boa vontade sem limites, mas às vezes acontece. Então exercite: pegue um dia qualquer — as segundas-feiras são sempre as mais indicadas, não me pergunte o motivo, é ciência — e dedique-o a fazer o que você tem vontade. Cozinhe aquela comida que só você faz e a-do-ra; ligue o som bem alto naquela música que você AMA e deixe que os vizinhos saibam da sua paixão; arrume seu quarto, lave suas roupas e proporcione a você mesmo um ambiente gostoso para passar a semana.

Faça um suco daquela fruta que não está na estação, mas está disponível no Hortifruti — pode ser que você tenha que pagar um pouco mais caro, mas, diabos!, é para a pessoa por quem você está apaixonado. Corra no parque, na calçada, na rua, na chuva, na fazenda, tanto faz, mas se exercite. Dê ao seu corpo a impressão de que ele é objeto de paixão também. E o mais importante: paquere-se. Se olhe no espelho, teste algum perfume, tome um banho demorado — às favas com a ecologia, é só por um dia — e leia um bom livro, ou passe o resto da noite vendo vídeos no Youtube, ou buscando uma série nova, mesmo que não ache nenhuma, a busca já valeu.

No dia seguinte você pode até fazer isso de novo, e no outro dia também, e seguir apaixonado pelo resto da sua vida — mas cuidado, cabeça de gente apaixonada é completamente imprevisível, então se vai manter essa paixão esconda o cartão de crédito (vai por mim). E depois de se descobrir apaixonado por você mesmo, se jogue em outras paixões, afinal é uma delícia e ninguém resiste — nem deveria –, mas não se esqueça, no fim do dia só uma paixão importa. E você sabe qual é.

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