Setembro

Todos começamos a terapia por um motivo aparentemente banal para o resto do mundo, mas para nós muito forte e sincero. Alguns motivos são mais fortes perante o tribunal da sociedade, como um luto extenso, um acidente grave com sequelas ou situações graves de abuso na infância ou mesmo na idade adulta;
Já outros, são vistos com menos empatia, como o término de um relacionamento (vai chorar por causa de homem/ mulher? — vale para os dois), a demissão de um emprego (arranja-se outro — como isso é cruel), ou simplesmente o fato de se olhar no espelho e enxergar ali a pessoa mais feia da face da Terra (isso é falta de louça para lavar — dirão os encorajadores da higiene caseira).
Entretanto, só mesmo quem senta no divã sabe o real motivo de ficar cara a cara com uma pessoa completamente desconhecida que, achamos, terá o poder de nos curar dos males que assombram nossa alma. Estar em frente a um terapeuta é uma das decisões mais difíceis que um ser humano pode tomar. É se abrir sem mentir, sem disfarçar ou esconder segredos. Tudo de mais sórdido é jogado numa sala de iluminação amena para uma pessoa que raramente expressa qualquer reação. É o céu e o inferno dentro de quatro paredes.
Ali é permitido chorar copiosamente, revelar os medos mais esdrúxulos (de fobia de palhaço e barata a medo de uma solidão aos 22 anos de idade), abrir gavetas então trancafiadas e confessar assassinatos a sangue frio. Tudo muito bem protegido pelo decoro profissional, não é o máximo?!
Eu comecei a fazer terapia graças a um relacionamento falido. Não quis tratar (apenas) uma tristeza, mas quis me livrar da pessoa que eu havia me tornado naquele momento: triste, amargurado, grosseiro e nada empático com os problemas dos outros. Em outras palavras, eu era o monstro que as redes sociais procuram banir dentro do politicamente correto way of life.
Eu fui traído diversas vezes, descobria e escolhia permanecer porque havia se instalado uma dependência emocional e um medo inexplicável da solidão. Coisa de quem vive um relacionamento abusivo, fui saber depois. Agora, abramos um parêntese importante aqui: traição.
Quem nunca foi traído pode atirar a primeira pedra ou dar corda no relógio. Estamos todos suscetíveis a passar por isso e não é vergonha nenhuma se acontecer. Também não é vergonha nenhuma decidir permanecer. Alguns relacionamentos dão certo após um baque e tudo bem. Portanto, ser traído é uma questão de tempo. E trair também. Aceite, dói menos.
Mas voltando à terapia: ela é incrível. A verdade é essa. A diferença entre falar com um amigo e conversar com um terapeuta é imensa. Ali não há medo de julgamentos, não há medo de represálias (nem sempre), não há medo de levar uns tapas, não há medo de que isso seja usado contra você num momento no futuro. E não se enganem, amigo que não faz nenhuma dessas coisas não é amigo.
Portanto, a campanha de conscientização chamada Setembro Amarelo é sensacional. Saber que você tem um ombro amigo onde se apoiar é uma das coisas mais importantes da vida, e também uma das mais prazerosas. Abrir um vinho e se debulhar em cima de uma pizza de calabresa esquecendo a dieta, o low carb e o vegetarianismo é o must do conforto. Mas só dá certo se estiver acoplado a uma boa sessão de terapia antes.
Abra a porta para que alguém converse com você, para que alguém lhe diga seus problemas, suas dores, seus anseios, desejos e frustrações, todos precisamos de um colo; mas se quiser dar algum conselho, seja simples, direto e muito prático: procure um terapeuta. Indique algum se puder, acompanhe na primeira sessão se puder, pergunte de vez em quando se o amigo tem frequentado o consultório. Isso, meu caro, é prestar um serviço à saúde mental. E viva a terapia!