Segregação urbana: prisão ao ar livre

Integração gratuita foi cancelada após 26 anos

Bruno Farias — 10/07/2017–09h58

Seu Antônio está parado no ponto de ônibus, o sol forte faz com que o senhor de 62 anos procure uma sombra. Sem sucesso. Impaciente, o aposentado, que continua trabalhando — cerca de 33,9% dos aposentados brasileiros continuam fazendo alguma atividade financeira , segundo dados do SPC Brasil (Serviço de Proteção ao Consumidor)— , reclama, “é sempre assim. Sempre essa demora da porra”.

Após quase 01hoo de espera, finalmente chega o transporte de seu Antônio. Um ônibus intermunicipal grande e azul, da linha 279 da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos) sentido São Judas, zona sul de São Paulo.

Às 15h00, a condução não é tão “cheia”, já o Metrô, segundo Antônio, “é sempre aquele inferno”. O idoso sai dia sim, dia não, às 14h00, de sua casa, no Jardim Campanário, uma das 101 favelas da cidade de Diadema, e vai para o trabalho. Um condomínio de alto padrão localizado na Vila Mariana, próximo à estação Paraíso, do Metrô.

“Demoro uma hora e meia, duas horas, pra chegar no serviço.” Mas não é apenas para ir trabalhar, que seu Antônio precisa tomar o transporte público, assim como mais de 50% da população da Grande São Paulo, ele usa-o para diversas atividades. “Não tenho carro, então pego ônibus quando vou no médico, visitar minha filha, passear. Tudo.”

Prisioneira

A estudante Talita Alves, 19, também moradora do Campanário, se limita a fazer coisas próximas à sua casa para não gastar dinheiro com condução. “Estou desempregada, então, procuro evitar ao máximo sair para lugares longe”, diz Talita. “Qualquer grana a menos faz falta”, completa.

A jovem informou que a maioria de seus amigos “estão na mesma situação”, por isso não se sente “sozinha”, mas, a sensação é de estar “presa, já que não pode ir para outros lugares”.

Essa percepção é compartilhada por muitos moradores que habitam regiões periféricas e pobres das cidades. De acordo com o geógrafo Milton Santos, falecido em 2001, a cidade é “real” para alguns e um “sonho” para outros, tudo depende do poder financeiro de cada pessoa.

Ainda conforme Santos, uma das maneiras de combater esse problema seria uma reforma urbana, que priorizasse as necessidades particulares de cada local. Se uma região é carente de hospitais, lá deveriam ser construídos mais imóveis com a finalidade de atender questões de saúde. Além da instalação de novos empreendimentos ser realizada pensando no bem estar de cidadãs e cidadãos, e não, visando o lucro, que, seguindo a linha de pensamento de Milton Santos, é o que acontece hoje.

Uma reforma urbana não sectária precisa ser realizada com urgência, segundo o especialista de urbanismo, Gustavo Cannario. “Existe sim uma sensação de confinamento por parte da população mais vulnerável.” Moradores de regiões pobres quando saem de suas “áreas” sofrem preconceito por conta do local onde moram e de sua classe social, “isso acaba por fortalecer a sensação de cárcere. Enquanto você está escondido no seu canto, a parte privilegiada da população não se incomoda, mas quando você sai do seu cantinho, eles se sentem invadidos, com medo, desconfortáveis”, disse Cannario. “Essas atitudes acabam por ampliar essa sentimento de prisão”, completa.

O mercado é um dos grandes responsáveis pela sectarização das cidades. Neste caso é mais explícito o objetivo não apenas “financeiro”. O tráfego de pessoas, a possibilidade com que elas venham e vão facilmente, gera mais receita. “Porém, o que vemos nesse caso, é uma tentativa de manter pobres longe de certos lugares. Uma tentativa de não se misturar, de manter cada um no ‘seu lugar.’”, falou Cannario.

“Aqui [Diadema] não temos lugares de lazer. Quando queremos nos divertir ou é o pancadão ou nada”, reclama Talita.

Passe Livre

Outra ação que, segundo alguns especialistas, poderia ajudar, são as políticas de passe livre.

O pesquisador em mobilidade social Eduardo Diniz diz que o passe livre deveria se estender mais, “atendendo, também, pessoas desempregadas e cobrar valores diferentes conforme a renda de cada pessoa”.

Essa política gera muita polêmica. Hoje existe o passe livre para estudantes, idosos e deficientes. O fisco público repassa para empresas de trasnporte o valor que essas categorias de pessoas não pagam.

Os governantes reclamam que isso acaba pesando muito para os cofres públicos. “Manter o acesso universal à cidade e seus serviços é um dever Constitucional. Essa é a função do Estado. Do contrário, essa segregação permanecerá.”

Sem cumprir seu dever

Porém, não é assim que muitos políticos enxergam o problema. Hoje, 10, é o primeiro dia útil da cobrança na integração entre ônibus e trólebus nos terminais Diadema, Piraporinha e São Matheus.

A decisão, tomada pelo governo do Estado da gestão de Geraldo Alckmin, PSDB, alegou que os custos com reformas nos terminais, na eletrificação para o tráfego de trólebus entre o Terminal Piraporinha e o Terminal Jabaquara, na zona Sul de São Paulo, além da implantação do Cartão BOM nos coletivos, aumentaram os custos.

“O mais espantoso de tudo, é que essa limitação no tráfego de certas pessoas, muitas vezes tem a mão de pessoas que são eleitas para evitar que isso ocorra”, ponderou o especialista Cannario.

Um outro motivo que fez o Governo acabar com a integração gratuita nos terminais da região é a de que, ele acredita existir um suposto abuso de diademenses usando os transportes da Metra para realizar trajetos que poderiam ser feitos a pé.

Observatório de Diadema
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