21 de fevereiro, centro de São Paulo no escuro

Foi na hora de acender a luz, não havia eletricidade. Tentei o abajur, depois o interruptor por várias vezes até me convencer que de fato era uma falta cujo culpado não seria eu, até agora pagar a conta de luz é uma prioridade. Gostaria de continuar lendo meu livro, já que pelo terceiro dia consecutivo decidira não sair de casa. Tinha retornado de uma curta viagem a Brasília e ainda me recuperava das histórias muito mal contadas que ouvi por lá. A noite, assim como o dia, entrara num pavoroso instante de incerteza agravado pela falta de luz, o desespero tenho aprendido a controlar, a ser mais calmo e pensar com mais tranquilidade no que me gera um profundo desencanto. O crepúsculo avançava e eu ainda sem saber o que fazer, resolvi caminhar a esmo, enfrentara os 18 andares nunca antes descidos por mim, era uma pequena aventura que não me custava muito além de prestar muita atenção onde se pisa, um passo em degrau inexistente seria uma queda no abismo da escuridão. Não sentia medo, mas minhas pernas bambeavam um pouco, eu não sabia o que pensar. Talvez nunca tivera sabido, minhas coxas pareciam latejar tamanha minha falta de prática em descer ou subir escadas. Confirmei com o porteiro para, como dizem quebrar um pouco do gelo e gerar um humor fácil e óbvio, estamos sem luz? — Não apenas nosso prédio, mas toda a rua, o quarteirão e até o outro. Caminhei então com os olhos muito atentos até o Largo do Arouche e até metade do largo não havia luz. O cenário me assustava, não susto que me movia a sentir medo, mas era um penetrar numa situação da qual não poderia imaginar. A escuridão mostra muito mais que a luz dos postes. Nela é possível ver a capa sombria do humano na sarjeta, o pedinte barbado e sem banho e as moças assustadas desviando-se dos grupos de homens. As moscas, esses seres buscadores de luz, atacam as lanternas dos celulares aqueles que se aventuram em buscar o caminho menos acidentado.

Caminhar a esmo na sombria face da cidade é como caminhar durante todas as outras noites. Mas a escuridão mostra, como gostaria de dizer, o que é proibido de calcular, mostra a nossa miséria lacerante, um velejador solitário que percebe que em breve uma tormenta afundará todos os navios. A falta de luz prediz uma armação que vem sendo tramada há muito tempo, é a trampa do esquecimento, nada é tão vazio e ao mesmo tempo tão repleto que a escuridão. E ela se misturava ao cheiro dos banheiros químicos do carnaval, às microfestas nos bares iluminados à luz de velas. As pernas de paus dos que ensaiavam para o bloco, as travestis que maliciosamente teimam em me chamar de bebê quando já tenho quase 30. E meu cansaço extremo nesse corpo que dói sem razão. Minha sina é perceber essa luz da escuridão, esse contato mágico e melancólico que emana de um velejador sem barco e sem mar. Me lembrei de Porto Prince, capital do Haiti que conheci em 2009, antes do grande terremoto, lá todas as noites faltava luz e a confluência maior de pessoas desconhecidas se dava na noite em que era possível igualmente a minha querida rua Rego Freitas, ouvir oferecimentos de corpos, ajustes de contas com bonecos de Voodu e comer churrasco de carne de duvidosa precedência. O Haiti também é aqui, nesses entreditos de luz e sombra, de acesso e falta, de explicações esfarrapadas e não explicações.

Continuo a caminhar entre os passantes, vendo o brilho da parte branca do olho, ouvindo risos, quase ninguém reclama da escuridão, tinha a sensação de apenas eu sentir como era absurdo aquilo. E entendia a grandeza de nossa generosidade transformadora dos problemas em soluções ou motivos para pequenas festas, pois no fundo as inconformidades são atestados perfeitos para a melancolia, se conformar é ativar em si o milagre da adaptabilidade e fazer da escuridão apenas uma sombra passageira.

Assim é também nosso carnaval, que dias após o incidente não explicado da luz, rugia no auge de nossas maiores extravagâncias, quisera que todos os dias fossem carnaval e que todos os dias faltasse um pouco de luz para darmos vazão a festa proibida dos instintos liberados dos medos. Só não quero que essa festa seja unilateral e que a falta de luz na caverna faça florescer alguém que nos convide para a claridade da imensa luz da manhã.

Bruno Eliezer Melo Martins é escritor, poeta e tradutor. Oferece cursos de literatura e atua como Mediador Cultural independente em São Paulo.

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