Deixem cantar

Bruno Eliezer
Aug 8, 2017 · 2 min read

Admito que foi muito recentemente que ouvi Elza Soares. Talvez em novembro do ano passado, quando um turbilhão se passava em meu pequeno apartamento que não é meu da rua Rego Freitas aqui em São Paulo. Mas as boas descobertas são aquelas que fazemos quando estamos preparados para ela. Assim tem sido. A mulher do fim do mundo que deseja cantar até o fim, com a melhor poesia, com a melhor voz, com a melhor dor. A dor que dança num baile de carnaval e o resto não é importante pois a vida reside no corpo que, com o tempo, decai se não houver a força desse desejo, no caso de Elza a própria música. Assim tem sido.

O samba, A mulher do fim do mundo, é uma coroa poética para Elza, não se trata apenas dela, mas de um nós. Temos aí a imagem da luta pelo seu amor à música e de forma sutilmente poética a nossa história brasileira em suas contradições cruéis. O choro se confunde com carnaval e a multidão com a tempestade. Também vale destacar as imagens oníricas ou melhor dizendo fantásticas que evocam a segunda estrofe “pirata e super homem cantam o calor”, “um peixe amarelo beija minha mão”, as asas de um anjo soltas pelo chão”, “na chuva de confetes deixo a minha dor”. Ponto máximo de uma cartase profunda exercida pela chuva confetina, pelo, sempre direi, corpo que nos dói e alivia.

É por esse motivo que a arte tantos nos fascina, ela nos dá, sem a parametagem da pedagogia ou ainda pior das teorias, o encontro direto com a forma criativa. Na terceira estrofe Elza canta tanto sua pele preta, sua voz, sua fala e sua opinião deixadas na avenida para que todos vejam e sintam. A música envolve a voz, nos faz dançar e nos dá um quadro de vigor, revigora e me sinto feliz por ouvir essa voz.

Na quarta estrofe, não quero explicar nada, mas apenas comento o que ouço com tanto afeto e pulso, “A minha casa, minha solidão, joguei do alto do terceiro andar, quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida, na avenida, dura até o fim”, a solidão do já vivido é transportada para a avenida que não se tornou mais fácil, continua dura, mas o irascível não entra, melhor cantar. E até o fim vai cantar. Assim como nós até o fim iremos cantar.

Prazerossímo samba, me alivia saber que é brasileira, me emociona. Grato Elza.

Bruno Eliezer

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Nunca se saberá como se deve contar isto, se na primeira pessoa ou na segunda, usando a terceira no plural ou inventando continuamente formas que de nada…

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