Educação poética

Flerto com a Educação desde o tempo em que quase fui expulso por fumar escondido no banheiro da Escola Teixeira, lá em Minas, onde fiz meu ensino fundamental. Naquela época gostava de pensar que no futuro não haveria divisões entre jovens e velhos, crianças e adultos e nem gênero definido e qualquer um poderia fumar, até no banheiro.. Seríamos todos iguais perante todos e marcados apenas pela experiência dura de viver e ir vivendo, com tosse ou sem ela. Troquei o banheiro enfumaçado pela biblioteca, pelo menos a direção da escola não encontrou mais motivos para me tratar como aluno-problema por algum tempo.

Apliquei-me na leitura que saltava muitas páginas, era uma ansiedade, não de chegar ao fim do livro, mas, de encontrar soluções próprias para as páginas puladas. Neste época li os miseráveis, os dois tomos de uma tradução amarelada, talvez seja da época do império.Fiquei sabendo na última vez que fui à minha cidade que, dado ao minúsculo espaço físico da biblioteca, descartaram numa caçamba também amarela, os livros menos lidos, possivelmente meus miseráveis estavam lá. Porém foi com Dante que me maravilhei mais alguns anos depois, na verdade foi uma iluminação, dessas que nos muda a vida por completo. Por boas fontes sei que a biblioteca da escola divide espaço com o depósito de equipamentos para a educação física. Por sorte minha escola deu de presente à cidade uma maratonista para compensar esse canhestro escrevente.

Retomo à educação, desde aquele momento da leitura de Os miseráveis, pensei em ser educador, não perdia uma oportunidade de declamar poesia, desde as auroras de minha vida até o nevoeiro profundo, profundo / amigo ou amiga / quem é que me espera do Quintana. Pouca sorte tive, só recentemente descobri que educação não significa poemas nem experiência, preferem fórmulas comportamentais, alguns até tentam falar de lutas de classes e outras deixas fundamentais, esses são poucos, chegam e se assemelham ao lirismo utópico aos poetas românticos que invariavelmente repetirão as mesmas dores. Sou da opinião de que ler Os miseráveis, ainda que pulando dúzias de páginas, é melhor que todas as explicações marxistas, naturalmente há ressalvas nem sempre haverá um Bispo morando casinha simples e nem sempre ele será caridoso a ponto de doar seus castiçais de prata para emancipação da alma de Jean Valjean da raiva acumulada depois de 19 anos numa galé de trabalho forçado. Contudo seja pelos bons espíritos ou não, é preciso encontrar a educação pela poesia. E uma educação poética só é possível quando a liberdade encontra terreno fértil com tempo e muita meninice, às vezes emoção e até na religião.

Ler para ser poeta é ser ler errado, ler imaginando uma história nova, às vezes, desprezando nosso próprio conhecimento das palavras para se chegar ao saber poético, que é confuso e nos confunde, se parece com fumaça. É manso, pode até parecer raso, é um itinerário sombrio que merece um mergulho no corpo da gente e faz com que nos lembremos de uma quase expulsão escolar. Enfrentei bravamente as sanções, sem me resignar, resignação é uma coisa que deixa a poesia muito xoxa. É melhor sempre relembrar traçando as metas de um pulo de gato do prédio vizinho de 7 andares. Nada mais poético que uma queda fervorosa em nós mesmos. Nada mais educativo que um poema de uma só palavra. E por fim, nada melhor um velho que ainda é menino, nunca deixou de sê-lo.

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