Era um pássaro muito verde

EU deveria ter uns 14, 13 anos ou, preferencialmente, menos. Nunca sei ao certo a idade de minhas desventuras. Mas sabia usar uma atiradeira feita de pau de goiabeira, tripa de mico, uma tira de couro e amarrinhas de linha de saco muito bem. Naquela época eu atravessa um bosque, hoje é um bairro chique, para chegar a uma espécie de segundo turno depois da escola em Minas, era um outro tipo de escola, uma que aprendíamos matérias diversas como tricotar, cuidar de hortas, líamos alguma coisa, tínhamos um almoço e lanche da tarde. Tinha o seu Domingos, um velho que ensinava a regar um pobre pau brasil que sempre estava depauperado e nos apresentava as ervas medicinais que cresciam livres no mesmo bosque que atravessa todos os dias.

Foi num tempo desses que resolvi levar minha atiradeira. Na ida não tive coragem de sacá-la, fui apenas olhando os matos, prestando muita atenção das pedras, nas mais redondinhas, excelente munição para minha atiradeira. Porém não resisti quando voltava para casa, com ela na mão praticava um tiro bastante longo, a pedra crescia numa parábola inversa e atingia como um bala de canhão à quase um quilômetro de mim. Eu ainda hoje juro que não tive intenção, um pássaro passou por mim enquanto mirava num alvo abstrato, tive um reflexo espontâneo de atirador e o acompanhei por alguns décimos de segundo e soltei a pedra bem prendida à atiradeira que seguiu sua trajetória de forma perfeita até a região anterior da cabecinha daquele inocente ser voador. Fui assassino de um papagaio muito verdinho que até poderia ter sido meu amigo. Quando a pedra o atingiu, gritou até desfalecer no chão. Imbuído, agora, de uma tentativa de salvá-lo corri até o local de sua queda e já aos prantos não pude fazer nada a não ser sentir raiva de minha pontaria.

Desse dia em diante deixei minha atiradeira de lado e não quis passar pelo bosque, dava uma volta tremenda pelos arredores dos bairros que iam sendo loteados aos pouco na minha cidade. Por que não elaborei um enterro para o pássaro? Ainda me arrependo disso. Não quis mais atirar e tentei esquecer. Acho que aquele pássaro era mais importante que eu naquele momento.

Me lembrando desse acontecimento penso que fui um pouco tardio até em matar passarinhos, apenas um me bastou, se tivesse feito antes não teria lembranças tão amargas. Porém minha desventura como caçador foi meteórica, me tornei um pacifista, não mato nem formigas ou baratas, as deixo fugir para algum santuário, mas quanto incomodam prefiro um método indolor como aqueles sprays preocupados com a saúde dos insetos ou então pedradas mesmo. Nada de sacrifícios abruptos.

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