Livros da estante, Antônio Cândido

É essa coisa mágica de que quero falar. Quando se pega um livro na estante, qualquer estante, na de casa, na biblioteca ou na casa de um amigo ou amiga, me sinto como se aquele livro fosse finalmente dar sentido a minha vida. Geralmente dá. Pois são os livros que para alguns são as chaves para todas as portas. E há seres humanos que são livros, Antônio Cândido é um deles. Um livro delicioso de memórias, crítica e lucidez.

Me lembro com muito carinho, quando da inauguração do da Biblioteca Antônio Cândido em Poços de Caldas, nos melhores tempos que do Instituto Companhia Bella de Artes, instituto em que estudei teatro e música, lá estava ele, isso pelos idos de 2007 ou 2006. O tempo corre e corre muito. Me lembro que dona Lilia de Carvalho Dias me chamou dizendo querer me apresentar uma pessoa, era ele, eu tinha 17 ou 18 anos. Ainda não sabia quem era aquele senhor amável. O que ele me perguntou, já tomando um café no hall do Instituto é como vai a juventude, respondi aprendendo e ele respondeu naturalmente. Comentou mais alguma coisa, não me ative muito, não sabia quem era.

Me lembro também que um querido amigo, Lucas Negri, já mais sabido que eu, escreveu um bilhete e entregou a ele. Eu o copiei, até hoje copio meus amigos, mas escrevi uma pequena prosa numa letra corrida, creio que deva ter ficado incompreensível. Num arroubo de deselegância fui até ele e coloquei como quem fosse abater alguma coisa, em seu bolso o meu bilhete, em vez de entregá-lo com placidez de admiração como fez meu amigo.

Esse homem, em sua fragilidade mineira, pois ele mesmo se considerava mineiro, mineiro de minha cidade, Poços de Caldas, que honra. Essa ideia de alegria só veio muito tempo depois, quando li seus textos, não em Poços de Caldas ou em São Paulo, cidade em que vivo agora, mas em Foz do Iguaçu em alguma disciplina da universidade.

Uma deliciosa análise do poema de Manuel Bandeira, Rondó dos Cavalinhos, do Livro Antônio Cândido da Sala de Aula que acabo de tirar da estante que não tenho. Nessa análise, Manuel Bandeira se despedia de Afonso Reyes, são citadas inúmeras parâmetros da análise poética, desde a numeração dos versos, aos finais e a forma, um rigor que ao mesmo tempo é doce e nos ensina como deve ser uma análise. Não me interessa analisar a análise aqui, mas apenas citar como Cândido extrai do poema uma vigorosa interpretação que nos cabe hoje. No cavalar poética da beleza simples, Bandeira, eu citando Cândido nos revela:

“Tanta gente que poderia ir sem fazer falta, e, no entanto, quem vai é logo alguém da qualidade de Alfonso Reyes, que poderia ficar. . .” “A Itália fascista falando grosso e se impondo à maioria das nações, que tentaram chamá-la à ordem, mas acabaram se rebaixando. . .”

Reescrevo Tanta gente que poderia ir sem fazer falta, e, no entanto, quem vai é logo alguém da qualidade de Antônio Cândido, que poderia ficar. . .

Aqui está, no Brasil de hoje, tantos indo para sempre, ficamos apenas com os de hora tardia. Belchior semanas atrás, agora Antônio, dias atrás Nelson Xavier. O ditado diz que os bons morrem jovens, aos 98 Cândido era, para não contrariar a unanimidade, lúcido e, essa lucidez transparece nos seus livros que não morrem. Ele vive quando tiramos seus livros da estante e lemos e aplicamos sua crítica.

Espero que Antônio não tenha lido meu bilhete, não sabia quem ele era, mas agora sei.