Sala de espera

“Então enfia no cu”, foi a primeira frase que ouvi quando entrei na cafeteria do hospital bandeirante, quem falava era uma mulher que pendurava o jaleco na área reservada para ele e se preparava para sentar. Procurei distância e sentei-me bem afastado com meu amigo em oposição a mesa dela. Não quis atentar-me ao desagradável debate alheio, pedi para que meu amigo me explicasse como se joga o Candy Crush, ele disse que é um jogo de estratégia e cheio de manhas, há um número certo de jogadas e a cada lance descobria as regras para passar de fase errando, aprendendo com os erros do jogo sem entender muito bem ou ler os avisos, era alguma coisa automática que fazia para assistir as luzes de seu ipad brilharem no próximo nível.

Não era a primeira vez que me sentia deslocado frente ao mundo asséptico dos hospitais, a compleição frágil dos que amo sempre me levam a visitas e carinhos para os que adoecem de forma imprevisível. Eu mesmo adoeço sem dar sinais prévios, adoecer é também fugir da noite de angustia, dar corda aos sintomas que nos evitará o pior. Os hospitais deveriam ser lugares de cura e não de doença, deveriam ser como uma casa de festas, a experiência da dor é universal, atinge a todos, porém tentamos escondê-la para mostrar que somos fortes, bravos e invencíveis. Somos tão humanos quanto a médica — depois li no jaleco, médica Cássia — que exasperava sabe se lá o porquê no princípio dessa crônica.

Não é fácil fugir, talvez não precisemos fugir desse lugar chamado mundo, lugar cheio de imprecações e belezas das mais urdidas, eficazes e ineficazes, e se não precisamos fugir dele, melhor seria se subíssemos numa árvore e de lá observemos os passantes, as histórias e a luta. Descendo vez ou outra para participar, lembrando que a árvore é nada mais de que nosso próprio corpo e que ninguém pode impedir-nos de escalá-lo da forma que melhor for ou simplesmente da forma escolhida, com andaimes e cordas ou com leite de magnésia nas mãos como quem escala uma parede de pedras e quando chegarmos lá no alto, sabemos que teremos de descer assim que a observação nos cansar e breve retornaremos. É um movimento infindável de idas e vindas a nós mesmos, para beber da sabedoria que nem sabemos que temos.

E nós, eu e meu amigo, aguardávamos ansiosos para ver a alegria em pessoa que de um imprevisto saiu mais forte do que nunca para se escalar e de lá do alto de sua vistosa fronte nos dar a rir e gozar a plenitude de estar vivo e continuar a escalar.

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