Três poemas

I
Não permita que morra sem antes compor versos
Sem antes dizer o quanto amo a vida e a quero
Contar viver narrar estar com meus amigos
Até o fim do fim e para todos os fins o coração
Sem função estático perdendo a cor oxidado
Sem choro não há vida e a vida com choro é
Permitida sem exagero apenas eu posso
Acabar com todas as doses compulsivamente
Até a quase morte até o limite do limite
Sem medo de passar para o outro lado
Sem cognição para lutar a justa luta
Deixado deitado na sarjeta imunda
Sem nunca ter sido abandonado, obrigado.
Ainda quero dizer o quanto amo a vida
E como quero me exorcizar de tudo que me faz mal
Para escrever, ainda que cinza, é belo o dia.
II
Anulando fantasmas
Os mais assustadores
Com flores da cidade sem jardim
Anulando essas marcas
Deixadas pelas próprias
Unhas minhas, socos meus
Gritos definidos
No horror megalomaníaco
De um homem
Ainda jovem, quiçá.
Correr pelas ruas
Atravessá-las sem olhar
Arranca a camisa na chuva
Tombar no chão de casa alheia
Campeia entre lágrimas
O diamante que penhorará.
Já na cama, outra manhã
Se pergunta, que houve?
Não sabe, mas carrega flashes
Uma serpente pica
Estava caído
Bombeiros acodem a cobra.
Bradava contra o mundo
Mas contra eu primeiro.
III
Recorro ao chão
Esse duro e frio e infeliz, às vezes, imundo
Repouso de todos
os loucos
Que nele adoram
Deitar
E se chover melhor
E se sangrar melhor
O chão, a terra, o corpo
Flutuando junto da areia e das pedras
E a transformação que nos causa à pele.
É do chão que nascem
as tulipas, as veredas
É nele que se enraíza
o alto jatobá, o poste
Nele está a construção
Humana, a cidade
E nele está minha face
busca minha humanidade.
Num ato absurdo
Encontrará a beleza,
mas
A desdita é mais fácil que a beleza.
