Três poemas

Bruno Eliezer
Aug 25, 2017 · 2 min read

I

Não permita que morra sem antes compor versos

Sem antes dizer o quanto amo a vida e a quero

Contar viver narrar estar com meus amigos

Até o fim do fim e para todos os fins o coração

Sem função estático perdendo a cor oxidado

Sem choro não há vida e a vida com choro é

Permitida sem exagero apenas eu posso

Acabar com todas as doses compulsivamente

Até a quase morte até o limite do limite

Sem medo de passar para o outro lado

Sem cognição para lutar a justa luta

Deixado deitado na sarjeta imunda

Sem nunca ter sido abandonado, obrigado.

Ainda quero dizer o quanto amo a vida

E como quero me exorcizar de tudo que me faz mal

Para escrever, ainda que cinza, é belo o dia.


II

Anulando fantasmas

Os mais assustadores

Com flores da cidade sem jardim

Anulando essas marcas

Deixadas pelas próprias

Unhas minhas, socos meus

Gritos definidos

No horror megalomaníaco

De um homem

Ainda jovem, quiçá.

Correr pelas ruas

Atravessá-las sem olhar

Arranca a camisa na chuva

Tombar no chão de casa alheia

Campeia entre lágrimas

O diamante que penhorará.

Já na cama, outra manhã

Se pergunta, que houve?

Não sabe, mas carrega flashes

Uma serpente pica

Estava caído

Bombeiros acodem a cobra.

Bradava contra o mundo

Mas contra eu primeiro.

III

Recorro ao chão

Esse duro e frio e infeliz, às vezes, imundo

Repouso de todos

os loucos

Que nele adoram

Deitar

E se chover melhor

E se sangrar melhor

O chão, a terra, o corpo

Flutuando junto da areia e das pedras

E a transformação que nos causa à pele.

É do chão que nascem

as tulipas, as veredas

É nele que se enraíza

o alto jatobá, o poste

Nele está a construção

Humana, a cidade

E nele está minha face

busca minha humanidade.

Num ato absurdo

Encontrará a beleza,

mas

A desdita é mais fácil que a beleza.

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