Já houve tempos melhores para ser um rejeitado

Essa semana enchi a cara, tomei um porre, fiquei ébrio, de piléque, bêbado. Não sei qual definição usar, nunca fiquei assim. Só me permiti a isso porque ela me trocou. Me trocou por um cara mais bonito. Não consigo entender, o que há na beleza? Ela não é algo que se luta para conseguir, não é preciso gastar tempo, abdicar de prazeres, suar, cansar. Com ela se nasce, apenas isso.

Deus, por que damos tanto valor a ela? Por quê?

Talvez os marxistas tenham razão, Adam Smith é um imbecil. “O verdadeiro valor das coisas é o esforço e o problema de as adquirir.” Pffu, a maioria das pessoas não pensam assim, inclusive ela, senhor Adam.

Eu sei no que implicou o álbum Transa, de 1972, de Caetano. Mas pra isso tive que estudar. Eu conheço Charlie Parker e Thelonius Monk. Eu sei a importância da Nouvelle Vague e do Expressionismo Alemão. Da semana de 22, da Tropicália, do Cinema Novo e de Acabou Chorare para a identidade nacional. Eu sei quem foi Antônio Callado, não apenas sei quem foi, como li Quarup.

Mas de que serviu tudo isso? Não tenho a beleza do cara pelo qual fui trocado.

E o pior de tudo. Enquanto enchia a cara me preocupei em estar sendo um imbecil, meritocrata e classista. Além de que, a música do bar era ruim. Eu queria sofrer ao som de Garçom e não de “50 reais”, acho que é esse o nome da canção.

Ah, Deus, que mundo é esse que um bom rejeitado não pode sofrer sem se preocupar com aspectos externos?