10.

Olhava no espelho e só via uma paródia flácida e pálida de mim mesmo. Os pelos esparsos não formavam um desenho bonito no peito, pareciam soldados em debandada depois de um bombardeio. Os dedos me pareciam curtos demais e acompanhavam o corpo atarracado. Meus ombros, que antes se erguiam para dar um porte orgulhoso, repousavam caídos sobre as omoplatas, derrotados. Meus olhos percorriam meu corpo, lambendo minhas feridas, mas aparentemente surtindo nenhum efeito.

Quando me apaixonava, o normal era que tudo ficasse mais bonito e leve, inclusive eu mesmo. Mas dessa vez o que restava era o peso do próprio corpo e a vontade de não existir. Não eram pensamentos suicidas, era uma genuína vontade de nunca ter pisado no mundo. De não ter sido um espermatozoide e um óvulo, e depois um punhado de células, um embrião, um feto, um ser vivo que um dia encontrou outro ser vivo que me destruiu.

Permiti-me deixar ser destruído por um homem que mal conhecia. E ele não queria o meu mal. Se queria alguma coisa, queria me fazer um homem melhor e me ajudar de alguma forma a acreditar que isso fosse possível. Mas ao aceitar essa ajuda, inevitavelmente vi que eu não era ninguém ao lado dele. Ele me amava, cuidava de mim, cuidava de nós dois. E isso me destruiu. Derrubou o que eu tinha como defesa, me desarmou, e me deixou completamente nu. Nu — e extremamente temeroso — eu me expus a tudo o que ele queria me dar, e ele me deu. Ele me deu o que tinha de melhor dentro de si. Todo o carinho, toda a atenção, todas as noites e dias que pôde. O tempo que ele deu foi dado a mim, e só a mim. Ele me amou como se eu fosse ele, e ele fosse uma pessoa completamente confiante, quase soberba. Como eu poderia desfazer essa troca, cancelar esse contrato, agora completamente nu?

Eu abracei minha própria destruição porque eu não tinha mais motivos para me segurar a mim mesmo, tendo quem me comportasse. Meu corpo desabava e não havia nada que eu pudesse fazer. As feridas se abriam, rachavam minha pele. Minha pele descamava e caía, deixando a gordura e os músculos à mostra. Meus ossos se quebravam e nada mais restava.

Ele me conheceu quando eu não tinha muitas expectativas, já calejado por outras perdas. Aceitaria ou não o que recebesse, sem esperar maiores explicações ou lógicas. Tudo bem, acontece. Mas o que não deveria ter acontecido aconteceu. Ele me viu imediatamente, não precisei sequer dar um sorriso ou uma opinião política. Ele me viu, e eu deixei que ele me visse. Quando cogitei mudar de ideia, já era tarde demais. Ele me abraçou, e foi ali que eu comecei a cair. Os beijos e o sexo vieram depois, quando eu já sabia que minha força um dia não estaria mais ali para me permitir gozar com ele. Mas eu gozei com ele. Muitas vezes. E cada vez que gozávamos, eu ficava um pouco mais fraco. E cada vez que ele me descobria mais, eu existia muito menos.

Até o dia em que me coloquei na frente do espelho e vi minha destruição se completar. A essa altura, ele não só me via como também me entendia. Ele podia compreender os motivos que me moviam e os que não me permitiam me mover. Ele me previa com precisão, e isso com certeza era o meu fim. E foi. Assisti enquanto desistia de existir e desabava. Sacrifiquei a mim mesmo por amor, não sabia outra forma de sobreviver a ser amado. Ruí.

Depois do fim, eu sabia que não existia nada. Era, afinal, o fim. Mas ele me amou no epílogo. Ele me transformou em algo novo, algo que eu ainda não conhecia. Ele me destruiu e me refez. Ele soube melhorar o que precisava ser reposto. Ele me trouxe de volta com a mesma ternura que havia me destruído. Eu não fui nada. Eu não era nada, até que ele me transformasse em algo. E eu deixei. Quem sou eu pra impedir que ele me ame?

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