11.

Eu achava que morreria sozinho. Achava que ninguém nunca conseguiria desvendar o meu medo de me comunicar e me abrir. Meus amigos do colégio eram do tipo calado, dividiam comigo a hora do recreio e pouco mais do que isso. Apesar de me tratarem bem, eu sempre senti seus olhos desconfiados, como se a qualquer momento eu pudesse tirar uma arma do bolso e apontar para eles. Acho que eles farejavam algo que não estava bem ali. Alguma coisa estava à espreita, acuada, medrosa, desesperada. Meus maiores medos deviam ter um cheiro próprio.
Nessa época, meu quarto era pequeno e muito organizado. Não havia muitos motivos para bagunça, a não ser a preguiça. Eu precisava deixar as coisas minimamente ordenadas para que a desordem que eu sentia não se manifestasse. Meu melhor amigo ficava na prateleira debaixo da TV. O videogame e seus vários jogos, que me faziam companhia todos os dias e noites, todos os fins de semana. Eu não precisava conversar com eles, o que era bom, porque eu não sabia conversar direito. Nem sobre o meu dia e nem sobre o monstro que eu tinha dentro de mim. Eu ainda não sabia o que era sexo e muito menos amor, mas sabia que havia algo torto na forma com o que eu sentia em relação a eles. Eu tinha um problema, e por muito tempo a única saída que eu tive foi me negar. “Não eu”.
Fui me desenvolvendo como uma pessoa que não sabia, não queria e não podia se expressar emocionalmente. Não sabia porque não tive um exemplo de abertura emocional que me permitisse sequer abraçar outra pessoa sem me sentir ridículo. Não queria porque, se me abrisse um pouco, tudo ruiria. Não podia porque, se ruísse, não haveria remendo. Paralelamente me apaixonei pela escrita e a leitura, como um escape para tudo o que estava represado. A adolescência foi especialmente difícil, porque minha voz mudava, meu corpo mudava, meu raciocínio mudava, mas os meus desejos só pioravam. Todo o tesão típico da fase me vinham carregados de culpa e negação. Meu pau ficava duro enquanto meu coração se apertava. Eu gostava de homens.
Foi somente aos 17 que eu me deixei beijar. Eu não o amava, nem sequer estava apaixonado. Ele era mais velho e feio, tinha cheiro de tomate seco. Mas ele foi a primeira pessoa que me disse que ficaria tudo bem, e me deu uma atenção especial. Permiti finalmente que me tirassem o cabaço e confirmassem que o monstro realmente estava ali. Peguei as rédeas e segurei o monstro com força, pela coleira. Com a desenvoltura de um adolescente, meti os pés pelas mãos e o monstro se soltou. Não demorou muito para o que o mundo — o meu mundo, composto de família e alguns amigos colecionados no colégio — soubesse que eu era um menino torto. A culpa se misturava com um senso de injustiça, um combustível incrível que veio impedir que eu me deixasse censurar. Foda-se todo mundo! Se eu soubesse liderar minha vida de forma prática, teria sido mais fácil. Minha família não me apoiou de início, e a casa que eu tinha como único refúgio virou um cativeiro. Não me lembro muito bem do que aconteceu nessa época, mas saí dela abatido. Dependente de muitas outras coisas e pessoas, tive que aguardar um bom tempo para me abrir novamente para alguém. Nesse meio tempo, machuquei muitas pessoas e também me permiti ser machucado. Mas dizem que é bom, cria calos, resistência, anticorpos.
Muitos anos tiveram que passar para que eu aprendesse coisas básicas como elogiar, receber elogios, abraçar e beijar sem vergonha, trepar, confrontar e exigir o que é meu por direito desde que eu nasci: o respeito de quem passa por mim. Eu não sou bom nisso, mas já melhorei. Coleciono histórias e me esforço para que meus homens e mulheres se sintam livres para se abrir comigo. Para a grande maioria de nós, gays, essa é a maior necessidade.